Cinepanettone: a série de filmes italianos que você nunca ouviu falar – Parte I

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Amado pelo público e odiado pela crítica (que o perdoou somente vinte anos depois): o Cinepanettone é um subgênero da comédia à italiana, que inicia em 1983 com a estreia do filme Vacanze di Natale, de Carlo Vanzina. O nome é um neologismo, criado no ano 2000, em um artigo do jornal de Giuliano Ferrara “Il Foglio” sobre o lançamento de Bodyguards. Usado inicialmente como depreciativo, o adjetivo cinepanettone se tornou o nome oficial do gênero de comédias lançadas no Natal pelo grupo Filmauro, que incluem quase sempre o mesmo elenco e time de roteiristas, diretores e técnicos.

Com um registro tipicamente popular, o cinepanettone sempre foi acusado de ser vulgar e de promover uma Itália consumista, de direita e classista, até ser redescoberto e perdoado por certa crítica em 2002, com o lançamento de Natale Sul Nilo, filme que marcará a maior bilheteria da história do cinema italiano até então, superando filmes como A Vida É Bela. Na verdade, o cinepanettone é uma sátira social da burguesia médio-alta tão eficaz quanto um A Grande Beleza, que retratou ironicamente os intelectuais italianos de classe alta.

O cinepanettone é uma paródia da sociedade italiana como um todo: ricos, pobres, falidos, vulgares, populares, príncipes, operários, moleques, top-models… todos entram nestes filmes-caldeirão, que entram em cartaz sempre na penúltima sexta do ano, para lotarem as salas do país inteiro entre 24 e 31 de dezembro. Ir ver um cinepanettone no cinema é o ritual social de milhares de famílias italianas: ninguém se importa pelos peitos, bundas, peidos e palavrões dos quais estes filmes estão encharcados! Tudo é lícito para conseguir uma risada.

Não existe continuidade entre os cinepanettone (exceto em casos específicos como os dois Yuppies e em A Spasso Nel Tempo) e geralmente são ambientados no Natal durante férias e viagens. Há algumas exceções, onde o cinepanettone não é de tema natalino, como Yuppies, Montecarlo Gran Casinó ou o belíssimo e amargo Sognando La California. A trilha sonora dos cinepanettone mereceria um artigo à parte, com hits do momento, que posicionam o filme num cronograma histórico preciso.

Não tenho registro de estreia no Brasil de nenhum destes filmes. Aliás, muitos deles nunca saíram da Itália, com exceção de Merry Christmas e Natale Sul Nilo, que tiveram coprodução espanhola e de S.P.Q.R. – 2000 e ½ Anni Fa, que entrou em cartaz em alguns mercados graças à presença de Leslie Nielsen.

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O único filme disponível no home-video brasileiro que se aproxima de um cinepanettone é Clube Dos Mulherengos (South Kensington) de Carlo Vanzina, que dirigiu o filme pela Medusa, produtora e distribuidora de Silvio Berlusconi, e lançado (fracassando nas bilheterias) no mesmo dia do cinepanettone Natale Sul Nilo: Clube Dos Mulherengos (que título brasileiro infame!), é uma comédia romântica sobre um lorde inglês falido (Rupert Everett) que aluga os quartos de seu casarão para neo-yuppies italianos. O filme seguirá rolos e desenrolos românticos dos italianos e de Rupert Everett, com uma esplêndida Elle Macpherson. A versão disponível no Brasil é bem mais refinada e menos vulgar; para piorar a situação, a cópia é em full-screen e dublada em inglês.

Não podemos começar a falar dos cinepanettone sem mencionar Sapore Di Sale, de Carlo Vanzina de 1982. Uma comédia ambientada nos anos ’60 que foi um estrondoso sucesso de bilheteria e que mostra a história de um grupo de adolescentes em um vilarejo de praia durante as férias de verão: amores, dores, sexo, traições, etc. Reza a lenda de que na première de Sapore Di Sale, no meio da projeção, o produtor Aurelio de Laurentiis, diretor da Filmauro, levantou da cadeira e foi procurar Carlo Vanzina e os atores do filme, contratando-os para realizar um filme parecido para estrear seis meses depois. O resultado é o primeiro cinepanettone e provavelmente a comédia mais influente da história do cinema italiano, Vacanze Di Natale.

O cinepanettone encerra com o pontual Vacanze Di Natale A Cortina de 2011, escrito por Carlo Vanzina e dirigido pelo mestre Neri Parenti. O filme encerrará uma era do cinema italiano. A partir dos anos seguintes, a Filmauro realizara comédias mais refinadas, sem vulgaridades e sem a verve dos anteriores. Recentemente o contrato com Neri Parenti, diretor de quase a metade dos cinepanettone venceu e o diretor não quis renovar, por conta de não ter mais a liberdade artística anterior. Assinou então um contrato com a Medusa Film, para realizar Vacanze Di Natale Ai Caraibi, que estreia neste Natal de 2015.

 

VACANZE DI NATALE (Férias de Natal) de Carlo Vanzina, 1983

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Cortina D’Ampezzo, 1983. Localidade onde as famílias da alta burguesia milanês e romana passam pontualmente suas férias de Natal em caros hotéis e em villas majestosas. Os Covelli são uma família de riquíssimos construtores: o patriarca Giovanni Covelli (Riccardo Garrone, o dono da casa da sequência da orgia de A Doce Vida), cansado da rotina de sua insuportável esposa e de seus filhos que aproveitam com grandes farras as finanças do pai. Em contraposição, chegam em uma utilitária os Marchetti: o pai Arturo (um mítico Mario Brega, na vida real fruteiro de Sergio Leone), acompanhado de esposa oversize e sogra reclamona. Junto a eles o filho Mario (Claudio Amendola), que se apaixonará por Samantha (Karina Huff), namorada de Roberto Covelli (Christian De Sica, filho de Vittorio, verdadeira alma e guia espiritual dos cinepanettone). Todos os personagens passam as noites em um bar onde toca o pianista-playboy Billo (Jerry Calá, aplaudido em Berlim com Diário De Um Vício de Marco Ferreri) que reencontra seu primeiro amor, Ivana (uma esplêndida Stefania Sandrelli). Mas Ivana é casada com Donato (Guido Nicheli) e não quer trair o marido. Ao descobrir uma traição de Donato com a prostituta Moira, com nome de batalha de “cavala de Porto Recanati”, passará uma noite com seu primeiro amor. O réveillon termina, as férias se acabam, e seis meses depois o grupo inteiro se encontrará na Sardenha.

É bom avisar logo que nunca mais o cinepanettone atingirá tais níveis de refinamento no roteiro: com um timing pontual, Enrico Vanzina escreve seu melhor filme (junto com Sognando La California e Yuppies). A crítica elogiou o filme sem muita ênfase, mas o público abraçou tanto Vacanze Di Natale, que até hoje existem dezenas de fã-clubes sobre o filme e os  personagens, como também são organizadas anualmente sessões especiais do filme. Há um fundo de melancolia que permeia todos os filmes escritos por Enrico Vanzina, como em momentos onde a gringa Karina Huff diz “Aqui se passa o tempo todo a decidir o que fazer e no final não se faz nada; you know… no meio destas pessoas me sinto estranha, como alguém que não deveria estar aqui”. Deste filme saem alguns dos maiores astros da história do cinema italiano: Christian de Sica, filho de Vittorio, terá sua carreira firmada graças a este filme e a quase todos os cinepanettone; Mario Amendola, filho de Ferruccio Amendola, dublador oficial de Robert de Niro, terá uma carreira bem definida entre a comédia e o drama; Stefania Sandrelli, no tempo com a carreira em declino, terá um ótimo comeback, graças também a La Chiave de Tinto Brass, lançado no mesmo ano; Guido Nicheli se tornará o líder espiritual de toda uma geração.

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A trilha sonora é praticamente uma lista de hits de 1983. Há um momento absolutamente mágico, no primeiro beijo entre Billo e Ivana, onde os personagens dialogam com trechos de música, vinte anos antes de Moulin Rouge de Baz Luhrmann. Abaixo a track-list, para discotecagens a tema.

Al piano bar di Susy – Eduardo De Crescenzo

Amore disperato – Nada

Ancora – Eduardo De Crescenzo

Aria di casa – Sammy Barbot

Aumm Aumm – Teresa De Sio

Dance all night – Lu Colombo

Dolce vita – Ryan Paris

Grazie Roma – Antonello Venditti

I like Chopin – Gazebo

I Want You – Gary Low

L’anno che verrà – Lucio Dalla

Maracaibo – Lu Colombo

Moonlight Shadow – Mike Oldfield (vocal Maggie Reilly)

Musica, musica – Ornella Vanoni

My Love Won’t Let You Down – Nathalie

Nell’aria – Marcella Bella

Nothing’s happening by the sea – Chris Rea

Paris Latino – Bandolero

Senza di me – Anna Oxa

Sunshine Reggae – Laid Back

Teorema – Marco Ferradini

Vita spericolata – Vasco Rossi

No Secrets – Gioia (Mirella Felli)

 

VACANZE IN AMERICA (Férias Na América) de Carlo Vanzina, 1984

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Um grupo de estudantes da escola San Crispino realiza uma viagem de férias nos Estados Unidos. O guia da comitiva é o professor de história e geografia Don Buro (Christian De Sica, que irá repetir o personagem no mítico Anni ’90 – Parte II), sacerdote puro e ingênuo, acompanhado por Don Serafino, um padre idoso com Alzheimer. Junto ao grupo de jovens estudantes se junta um ex-aluno, Peo Colombo (Jerry Calá), que prometerá aos meninos grandes noites de sexo com mulheres graças a seus dotes de amante latino: obviamente com consequências desastrosas. Filippo De Romanis é o único dos estudantes que irá acompanhado pela mãe solteira (uma divina Edwige Fenech). Alessio Liberatore (Claudio Amendola) se apaixonará por Antonella (Antonella Interlenghi), namorada de um fanático por videotape, porém ela irá recusá-lo devido a diferença de idade. Filippo De Romanis se apaixonará por uma surfista. Don Buro resistirá à tentação da senhora De Romanis, que em seguida se apaixonará pelo pai da namorada do filho dele. Voltanto á Itália, Alessio vai ao cinema com uma namoradinha e encontra Antonella, que declara seu amor por ele. Alessio diz que Antonella chegou atrasada: está apaixonado por outra pessoa, mas os dois podem ficar amigos.

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Um dos poucos cinepanettone não-Filmauro. Desta vez produzidos por Mario e Vittorio Cecchi Gori (A Vida É Bela ou O Último Imperador, tanto para dizer dois filmes), os irmãos Vanzina (Carlo na direção e Enrico no roteiro, como sempre) continuam com o mesmo registro de Vacanze Di Natale: comédia escrachada e extrema melancolia juvenil. Há momentos hilários, como quando Peo leva os colegas de escola na casa de um amigo de infância que organizou uma orgia: ao chegarem na cobertura, irão descobrir de estar em uma suruba gay. Ou quando, sempre Peo, para não gastar dinheiro com motel, irá na casa de duas prostitutas ítalo-americanas, onde não farão sexo, mas jogarão cartas com a família.

Alguns dos estudantes do filme são realmente estudantes do último ano do colégio San Crispino. Além disso, alguns dos atores, serão escalados para a série de TV I Ragazzi Della Terza C, produzida pelos Vanzina. É um dos poucos filmes italianos onde Edwige Fenech atua com sua própria voz e não é dublada. A música dos créditos finais é “Funny Face”, cantada por Rita Rusic, que se tornará esposa do produtor Vittorio Cecchi Gori e uma das mulheres mais influentes do cinema italiano dos anos ’90.

 

YUPPIES – I GIOVANI DI SUCCESSO (Yuppies – Jovens de Sucesso) de Carlo Vanzina, 1985

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Milão, anos ’80. Um grupo de quatro amigos yuppies vivem seus dias sonhando os mitos da grande finança italiana, como Berlusconi ou Giovanni Agnelli. Por conta de seu estilo de vida baseado mais em diversão e hedonismo, pensando ao aparecer mais do que ao ser, os amigos se encontram frequentemente em surreais situações das quais dificilmente conseguem se livrar. Willy (Ezio Greggio) é proprietário de uma concessionária de carros: um grande playboy, que namora Amanda, filha de dezessete anos de um importante conde; aguardando que a garota se sinta pronta para transarem a primeira vez, ele frequenta outras mulheres, como a linda quarentona Françoise (Corinne Cléry). Giacomo (Jerry Calá) é um publicitário que tenta conquistar a jornalista Margherita (Federica Moro, ex Miss Italia), mas a cada encontro com a garota, ele é empatado pelo diretor da empresa onde trabalha. Lorenzo é um tabelião que trabalha no escritório do sogro, e é a pessoa mais tranquila do grupo, casado, fiel, que não tolera excessos. Porém, é convencido pelo amigo Sandro a trair sua esposa com a secretária, sempre apaixonada por ele. Enfim temos Sandro (Christian De Sica), dentista que aproveita qualquer ocasião para trair sua esposa. Para os quatro, a situação irá complicar. Willy descobre que Françoise é a mãe de sua namorada; Giacomo é promovido vice-diretor da empresa, mas recusa de combinar um encontro entre Margherita e o diretor-chefe e se demite; Sandro descobre as traições da esposa e a deixa; Lorenzo, após salvar do suicídio sua secretária apaixonada, é despejado pela esposa. Os quatro se encontram em Cortina D’Ampezzo nas férias de Natal. Willy irá com uma nova namorada, Giacomo com sua amada Margherita e o calmo Lorenzo chegará no restaurante com várias mulheres que irá “dividir” com Sandro. Durante o almoço, como uma aparição divina, comparece o helicóptero de Giovanni Agnelli, patron da Fiat e homem-símbolo do quarteto e de toda uma geração de yuppies. Sandro, admirando o helicóptero dirá: “Mas nós, um dia… conseguiremos chegar lá?”. Ao chegar a conta do restaurante os quatro, que ostentavam riquezas com suas acompanhantes, brigam para decidir quem vai pagar.

É Yuppies – I Giovani Di Successo que irá sancionar definitivamente os rumos do cinepanettone como comédia de costume. O filme analisa através de tiques, manias e comportamentos toda a ideologia yuppesca italiana: uma tribu obcecada pela ostentação de relógios, roupas, marcas, joias e belas mulheres-objeto. Um filme geracional, que a crítica entendeu como uma glorificação destes ideais, mas que na verdade é uma sátira feroz e divertida, digna de um Steno ou um Mario Monicelli. O roteirista Enrico Vanzina declarou durante o lançamento do filme que “Os yuppies no trabalho são eficientes e profissionais. No tempo livre são engraçados”. E é nessa ridicularização do fenômeno yuppie que o filme ganha força. Os protagonistas tem como modelo empresários do calibre de Agnelli, Berlusconi, Carlo de Benedetti, Luca Cordero di Montezemolo, que possuem classe, riqueza e conquistam belas mulheres. Os protagonistas de Yuppies – I Giovani Di Successo não possuem nada disso, mas gostariam de chegar lá, mas não percebem o quanto são ridículos ao tentar subir na vida. Andam com carros caríssimos, frequentam boates de tendência, dão de presente joias a belas mulheres, mas brigam para quem deve pagar a conta do restaurante.

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O filme foi produzido quase como um instant-movie, logo quando em Milão iniciaram a proliferar os primeiro yuppies. A trilha sonora contém grandes sucessos como Duel dos Propaganda e Live Is Life dos Opus. Outras canções que acompanham o filme são Exotic and Erotic de Sandy Marton, Cheri Cheri Lady dos Modern Talking, More Than I Can Bear de Matt Bianco, I Was Born to Love You de Freddie Mercury e It’s So Easy de Valerie Dore. Grandioso sucesso de público e afundado pela crítica, que não conseguiu enxergar no filme uma crítica social. Como disse Enrico Vanzina, o filme “é uma operação velha como a comédia à italiana: pegar estereótipos do costume nacional e construir ao seu redor um filme-instantaneo, do qual alguns anos depois poderemos enxerga-lo provavelmente com um sorriso”. O crítico-midas italiano Paolo Mereghetti sancionou Yuppies – I Giovani Di Successo como “o filme italiano mais vulgar e nocivo da década”.

 

YUPPIES 2 de Enrico Oldoini, 1986

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Continuam as aventuras dos Yuppies milaneses, grandes profissionais no trabalho e desastradamente fracassados na vida privada. Giacomo (Jerry Calá) se casa com Margherita (Federica Moro, desta vez não dublada) porém tem um problema: ela quer desesperadamente um filho e obriga o marido a um impiedoso regime sexual. Para complicar, na casa chega uma visita: Anna, amiga de infância de Giacomo; modelo apaixonada por ele, que se declara psicologicamente instável porque desde adolescente desejava fazer amor com o coitado. Anna conseguirá possuir Giacomo por uma noite, bêbado, enquanto pensa que está transando com sua esposa. Ao perceber que Giacomo está realmente apaixonado por sua esposa, Anna voltará aos Estados Unidos, enquanto Margherita anunciará a Giacomo de estar grávida. Lorenzo (Massimo Boldi), expulso de casa pela esposa, terá que morar na casa de Sandro (Christian de Sica), que se apaixonará por uma nadadora soviética, que chegou na Itália a nado (?!?). Ela se apaixonará por Lorenzo pelo fato dele saber falar russo, mas ele está tentando reconquistar sua esposa: conseguirá tê-la de volta invadindo a casa, enchendo de socos o doméstico e sua sogra e tendo uma noite de sexo selvagem. Willy (Ezio Greggio) sonha em conquistar Isabella Barattini Tenti, empresária chefe de um império financeiro: os amigos contratarão uma sósia para um trote, ele pensará de ter conquistado o coração da industrial e ao descobrir a brincadeira, decide publicar fotos picantes dos dois (?!), conquistando a verdadeira Rainha da Bolsa. No final, os amigos se encontram em um voo particular para Roma, onde tentarão fechar um negócio com o Papa. De maneira desastrosa, óbvio.

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Se por um lado o roteiro da sequência de Yuppies pode ser considerado um desastre, de outro não podemos negar a desenvoltura com a qual Enrico Oldoini troca as cartas do cinepanettone, revolucionando o registro do gênero, que a partir de então terá sempre mais espaço ao absurdo e ao impossível. Os Vanzina não estão no roteiro e se vê (ocupados na realização do refinado I Miei Primi 40 Anni). Ainda não chegamos às gags físicas e escatológicas (e geniais) de Neri Parenti; ao contrário do que possa sembrar, este segundo capítulo continua com uma certa crítica social, que Oldoini tratará mais detalhadamente em sua trilogia sobre a Itália (Anni ’90, Anni ’90 – Parte II e Miracolo Italiano), realizando um verdadeiro tratado sociológico sobre usos e costumes da Itália pré-berlusconiana.

 

MONTECARLO GRAN CASINÒ de Carlo Vanzina, 1987

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Entre hotéis de luxo e o cassino de Montecarlo circula um grupo de italianos que tem como característica comum o vício do jogo. Furio (Christian De Sica) vence uma grande quantia no Cassino, perdendo-a no dia seguinte. Sua namorada o abandona e ele, sem um tostão, será obrigado a trabalhar como gigolô de uma velha senhora multimilionária. Os irmãos Gino (Massimo Boldi) e Lino (Enrico Beruschi) são donos de um restaurante e vão para Montecarlo para comprar um apartamento e obter a cidadania para economizar nos impostos. Gino perderá todo o dinheiro jogando na roleta com Silvia, a amante de um empresário. Oscar (Ezio Greggio) é um golpista que se aliará com Paolo (Paolo Rossi), um eletricista de San Remo ótimo nas cartas.

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O filme marca a volta de Carlo e Enrico Vanzina e é de um frescor único no cinepanettone. O melhor são os míticos Guido Nicheli e Mario Brega, que reservam momentos épicos. Será o maior fracasso de bilheteria dos cinepanettone, tanto é que Aurelio de Laurentiis chegará a pretender que Massimo Boldi, Christian de Sica e os Vanzina trabalhem grátis para o filme do ano seguinte: os quatro irão recusar, para realizar o maravilhoso Fratelli D’Italia, escrito pelos Vanzina e dirigido por Neri Parenti. Não haverá cinepanettone até 1990. Nothing’s Gonna Stop Me Now de Samantha Fox é a música-tema do filme.

 

VACANZE DI NATALE ’90 (Férias de Natal ’90) de Enrico Oldoini, 1990

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Em um luxuoso hotel de St. Moritz, durante as férias de Natal se desenvolvem as estranhas aventuras de alguns clientes. Nick (Diego Abatantuono), falido dono de um restaurante, perde a voz após ter vencido 4 milhões em uma corrida de cavalos. No avião para St. Moritz conhece Eliette, uma refinada mulher pela qual se apaixona: ele não fala e se comunica somente com gestos e bilhetes. Na véspera de Natal ele é convidado em um jantar na casa da família de Eliette: durante um discurso reacionário contra os pobres e os moradores do sul da Itália, Nick recupera a voz e insulta toda a família aristocrata. Toni (Christian de Sica) é um jovem gigolô que casou com Gloria (Moira Orfei), uma senhora bem mais velha que ele, que o obriga a continuas torturas sexuais sadomasoquistas. Toni reencontra um amigo de juventude, Bindo (Massimo Boldi), que descobre uma traição de sua mulher. Toni e Bindo arquitetam um plano para matarem suas esposas.

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Totalmente sem rumo e sem sentido, esse Vacanze Di Natale é o pior filme da série. Mesmo tendo o co-roteirista de Era Uma Vez Na América Franco Ferrini, o filme não se segura, sendo uma cópia delirante do original Vacanze Di Natale. Como mérito, tem o tentativo de adaptar o esquema de cinema natalino a uma comédia mais sofisticada em estrutura, mas sem perder a sua vulgaridade. No ano seguinte, com Vacanze Di Natale ’91, Oldoini se faz perdoar por esse esquecível filme.

 

VACANZE DI NATALE ’91 (Férias de Natal ’91) de Enrico Oldoini, 1991

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Mais uma vez em St. Moritz, um grupo de italianos passará o ano novo em um prestigioso hotel. Mimmo (Andrea Roncato) e Rino (Nino Frassica) são um casal gay que vai passar as férias com o filho de Mimmo, que tem 10 anos. Rino conhecerá uma mulher que fará descobrir sua heterossexualidade. Leopoldo (Ezio Greggio) é viúvo: casará com Marta (Susanna Berquer) e os dois serão importunados pelo fantasma da ex-mulher. Dois homens (Massimo Boldi e Christian De Sica) decidem trocar suas esposas por uma noite, com situações desastrosas. Giuliana (Ornella Muti) finge ser uma mulher rica: namora com um conde, mas tem vergonha de admitir que seu padre Sabino (Alberto Sordi) é garçom do restaurante do hotel. Na noite do Reveillon, graças à amizade de um velho cliente politicamente influente, Sabino se vingará de todas as humilhações que aguentou do diretor do hotel e dos clientes.

Cópia carbono do argumento de Vacanze Di Natale ’90, mas com um roteiro desta vez de peso, assinado por Oldoini junto a Giovanni Veronesi e Alberto Sordi. Divertidíssimo o episódio de Massimo Boldi e Christian De Sica. Já o episódio do casal gay tem ótimas premissas, que se resolvem de maneira moralista (a mulher “conserta” o gay passivo) e sem bom desenvolvimento. O episódio de Ezio Greggio é extremamente delirante, com risadas dignas de vergonha alheia. Irresistível ver Alberto Sordi, num papel melancólico e cômico como quase todas as coisas que ele fez nos anos ’90.

Um bom filme, mas extremamente cansado. No final, no baile de Reveillon, todos os conflitos se resolvem graças à música Ritmo De La Noche que ao iniciar leva todos os personagens na pista de dança, interagindo até mesmo sem se conhecerem. Quase como uma marcha fúnebre, a música levanta personagens cansados, mas que conseguiram a difícil missão de nos fazer rir. E muito.

O cinepanettone mudará por alguns anos seus modos de enfrentar a realidade nos filmes a seguir.

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Quem (ainda) tem medo de A SERBIAN FILM?

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Fui intimado a comparecer na data 29 de julho de 2015, na Delegacia de Proteção da Criança e do Adolescente do município de São Luís. Na carta de intimação, pedia-se para levar a documentação de propriedade da distribuidora Petrini Filmes, junto ao material que autorizaria a exibição e distribuição de A SERBIAN FILM – Terror Sem Limites, filme que lancei em 2011 e que viveu uma odisseia judiciaria que durou um ano interminável.

Ao apresentar-me à delegada do DPCA com todos os documentos que atestavam a liberação do filme pelo Ministério Público Federal de Minas Gerais, a própria se demonstrou surpresa em ver este procedimento, uma vez que o filme já tinha sido liberado em 2012. Pois bem, o Ministério Público solicitou inquérito policial para a investigação do filme por conta de uma denúncia anônima vinda do Maranhão. Mais estranho ainda é o fato de que esta denúncia foi manifestada em abril de 2015, quase três anos depois da liberação de A SERBIAN FILM.

Alguém ainda tem medo de A SERBIAN FILM? O filme ainda incomoda tanto assim, ou é uma manobra política ou pessoal para atacar alguma coisa ou alguém? E porque isso em abril de 2015, depois que o filme foi liberado, exibido, visto e revisto? E porque justamente no Maranhão?

Muito estranho receber esta intimação em um período em que a Petrini Filmes atua como produtora, distribuidora e exibidora, no restrito mercado de São Luís, proporcionando à comunidade um trabalho sólido e repetidamente louvado na administração do Cine Praia Grande: uma empresa séria que atua com comprometimento na difusão da cultura e do cinema maranhense.

A SERBIAN FILM foi proibido em julho de 2011, a pedido do diretório do Rio de Janeiro do partido DEM. Ninguém do partido viu o filme. O juiz que assinou a proibição não viu o filme. O advogado que escreveu a peça que promoveu a proibição não viu o filme. “Não vi e não gostei”, disse o ex-prefeito do Rio de Janeiro César Maia, que pediu o veto. O deputado Marcos Feliciano esteve entre os promotores da censura do filme, afirmando várias vezes de que não precisou vê-lo. Grupos evangélicos incitaram mensagens de ódio à minha pessoa, por representar o filme no Brasil. Um pesadelo: e ninguém viu o filme.

Em julho de 2012, finalmente A SERBIAN FILM foi liberado pelo Ministério Público Federal, com laudo do Diretor Geral da Polícia Federal Leandro Daiello Coimbra, onde afirma que “A SERBIAN FILM – TERROR SEM LIMITES” não incorre em nenhuma modalidade criminal”.

O filme estará em cartaz no Cine Praia Grande a partir de hoje, como forma de protesto contra este ato de censura.

 

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“Cinquenta Tons de Cinza” de Sam Taylor-Wood, 2015

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Falar mal do filme “Cinquenta Tons de Cinza” é como atirar na Cruz Vermelha. Mas quando esta cruz atrai milhões de espectadores aos cinemas em um delírio coletivo inexplicável, com hordas de fãs e de curiosos, é lícito fazer algumas reflexões sobre onde esteja indo o Cinema. Certa vez, Giuseppe Tornatore disse que todo filme tem algum motivo que justifica sua existência e postulando isso, segundo ele, não existiriam filmes ruins: sempre teria um plano, uma atuação, uma cena, um dialogo ou alguma outra coisa que poderia salvar um filme. Em minha vida de amante do cinema, sempre levei como lema este pensamento do diretor de “Maléna”. Até assistir o filme de Sam Taylor-Wood.

Como base então, o fenômeno literário de E. L. James: “um romance de sexo para quem não faz sexo”, como bem explicou Madonna em uma declaração recente. Mas também um romance que, no bem e no mal destaca de forma leve a independência da mulher e seu despertar sexual. Não é uma obra literária digna de Anais Nin ou do Marques de Sade, mas é um livro que ousa em colocar as fantasias eróticas mais inabituais ao lado de um clima de romanticismo estilo “Sabrina”: ideal para as adolescentes românticas que terminaram de ler “Crepúsculo” e para os curiosos das práticas do bondage. Porque, vamos ser francos, sem a morbosa curiosidade de conhecer as práticas de sadomasoquismo em detalhe, o livro venderia tanto assim? A inevitável transposição cinematográfica chega em pompa magna  pontual pro Valentine’s Day. Era a ocasião de ouro para o gênero erótico voltar definitivamente ao cinema mainstream: um filme de estúdio, falando de prática bondage, com muito erotismo e de grande apelo. O resultado foi um telefilme erótico de série B (ou C, já que a série B tem fornecido boas coisas do gênero) filmado em scope e com Danny Elfman na trilha sonora (bem abaixo de seu tom habitual).

Um conto de fadas com helicópteros no lugar de cavalos brancos, onde o afeto do protagonista masculino é medido pelo valor dos presentes e o sexo é definido por cláusulas de contrato (que incluem o anal fisting). Sem alguma titubeação, Anastasia (Dakota Johnson, que espero vê-la em breve em filmes melhores) aceita todas as formas de submissão que o amado (ou patrocinador?) Christian Grey proporciona. E é em Grey que a transposição peca desastradamente: um personagem que durante quase duas horas se diz atormentado e que não transmite o tormento. O machismo permeia tanto Anastasia quanto Grey: ela se submete, porque deve satisfazê-lo; ele a submete, porque deve ser satisfeito.

As relações sadomasoquistas não estimulam uma ideia de sensualidade, chegando a atingir o riso involuntário cada vez em que é apresentada a “sala de jogos” do Mr. Grey com todos os seus utensílios. Falta então erotismo em um filme que se diz erótico. A cena mais chocante de bondage está no clímax do filme, onde Anastasia é punida com 6 palmadinhas e sai da casa com repulsa e decepcionada por ter apanhado do Grey. Nada perto do semi-linchamento de Charlotte Gainsbourg em “Ninfomaníaca”. E daí faço uma pergunta. Há sentido de existir “Cinquenta Tons de Cinza”, um ano após “Ninfomaníaca”, “Azul É A Cor Mais Quente” e “Jovem e Bela”?

 

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O CINEMA POR ELAS – de 27 de março a 2 de abril no Cine Praia Grande

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O Cine Praia Grande de São Luís está mais do que orgulhoso de apresentar sua primeira mostra cinematográfica da temporada de 2014. Nada melhor do que iniciar a temporada homenageando as mulheres no mês do Dia Internacional da Mulher. Para isso, o Cine Praia Grande apresentará a mostra O CINEMA POR ELAS, criada e organizada pela Petrini Filmes com o apoio da Embaixada da França e do Institut Français.

O CINEMA POR ELAS irá exibir sete grandes filmes dirigidos por mulheres, tratando temáticas femininas em várias esferas, promovendo o trabalho da mulher no cinema, abrindo uma reflexão para a ampliação da participação profissional das mulheres na sétima arte.

Muitos os filmes de grande repercussão internacional que serão exibidos na mostra: “Belle Épine” de Rebeca Zlotowski, “Bye Bye Blondie” de Virginie Despentes, “Cinzas e Sangue” de Fanny Ardant; muitos deles nunca entraram em circuito no Brasil.

As sessões da mostra O CINEMA POR ELAS acontecerão às 18h00, de 27 de março ao 2 de abril no CINE PRAIA GRANDE.

Ingresso: R$ 6,00 (inteira) e R$ 3,00 (meia)


Quinta-feira, dia 27: BELLE ÉPINE de Rebecca Zlotowski
Sexta-feira, dia 28: ROMANCE X de Catherine Breillat
Sábado, dia 29: CINZAS & SANGUE de Fanny Ardant
Domingo, dia 30: SOBRE A TÁBUA de Leïla Kilani
Segunda-feira, dia 31: UM VENENO VIOLENTO de Katell Quillevéré
Terça-feira, dia 1º: A BATALHA DE SOLFERINO de Justine Triet
Quarta-Feira, dia 2: BYE BYE BLONDIE de Virginie Despentes

SINOPSES
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BELLE ÉPINE: De Rebecca Zlotowski. Com Anaïs Demoustier, Léa Seydoux. Drama socíal em cores/80’

Prudência tem 17 anos e perdeu a mãe há poucos dias. Deixada à sua sorte, sozinha no apartamento da família, ela encontra Maryline, rebelde da escola que lhe faz descobrir o circuito selvagem de Rungis, onde giram perigosamente grandes cilindradas e pequenas motocicletas envenenadas. Fascinada pela turma do circuito, Prudência tenta conquistar um lugar, tentando pensar que sua solidão é a liberdade. SEMANA DA CRÍTICA, FESTIVAL DE CANNES 2011.
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ROMANCE X: De Catherine Breillat. Com Caroline Trousselard, Sagamore Stévenin, Rocco Siffredi. Drama em cores/95’.

Maria é uma mulher sexualmente rejeitada pelo marido (Sagarmore Stevenin). Ele não a toca mais e encara com normalidade sua falta de interesse sexual. Para satisfazer o vazio sexual e afetivo, Maria intercale longos diálogos durante transas com amantes que mal conhece. A MESTRE DO EROTISMO À FRANCESA CATHERINE BREILLAT EM SEU FILME MAIS SENSUAL. VERSÃO SEM CORTES


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CINZAS & SANGUE
: De Fanny Ardant. Com Ronit Elkabetz. Drama em cores/105’.

Exilada da Romênia desde que seu marido foi assassinado há dez anos, Judith vive em Marselha com seus três filhos. Após se recusar a ver sua família durante anos, e apesar dos seus medos e segredos, ela se deixa convencer pelos filhos e aceita um convite para ir ao casamento do sobrinho. Eles vão passar o verão no país natal, descobrindo suas raízes e seu passado. Mas a volta de Judith revive velhos ódios entre clãs rivais e desencadeia uma espiral de violência. SELEÇÃO OFICIAL – FESTIVAL DE CANNES 2009

 

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SOBRE A TÁBUA: De Leïla Kilani. Com Mouna Bahmad, Nouzha Akel, Soufia Issami. Drama em cores/106’.

Tanger hoje, quatro mulheres de vinte anos trabalham de dia para sobreviver e vivem à noite. Elas se repartem em duas castas: as textiles e as crevettes. Sua obsessão: sair dali. Do nascer do sol até o anoitecer, a carência é enfrentada. Tempo, espaço e sono são raros. Acompanhe os percursos de Badia, Imane, Asma e Nawal. QUINZENA DOS REALIZADORES – FESTIVAL DE CANNES 2011
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UM VENENO VIOLENTO: De Katell Quillevéré. Com Michel Galabru, Thierry Neuvic. Drama socíal em cores/92’.

Ana, uma adolescente de 14 anos, sai do internato e volta para sua vila natal. Ela aproveita as férias para fazer a Crisma, última etapa de suas obrigações católicas. Ao chegar, descobre que seu pai acaba de sair de casa. Sua mãe, desolada, encontra refúgio nas palavras de um padre amigo de infância. Ana se aproxima de seu avô, que adora. Ela se aproxima também de Pierre, um adolescente livre e feliz, que não se importa muito com Deus. Mas o súbito desejo pelo rapaz a faz vacilar: uma parte secreta dela procura se doar de corpo e alma, a Deus ou a qualquer outra coisa. FESTIVAL DE CANNES – QUINZENA DOS REALIZADORES 2010
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A BATALHA DE SOLFERINO: De Justine Triet. Com Laetitia Dosch. Comédia em cores/94’.

Para cobrir as eleições presidenciais, Laetitia deixa seus filhos com seu ex-marido. Contudo, uma série de imprevistos absurdos acontecerão pelo caminho, da babá amante, ao advogado misógeno; é domingo na França, nada funciona!
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BYE BYE BLONDIE: Com Béatrice Dalle, Emmanuelle Béart. Comédia dramatica em cores/100’.

Gloria e Frances viveram, aos 16 anos, um primeiro amor arrebatador. Separaram-se ainda na juventude e nunca mais se viram. Atualmente, Gloria vive em Nancy, interior da França, sem trabalho, família ou domicílio fixo. Frances se tornou uma famosa apresentadora de televisão e vive um casamento de fachada com um romancista gay em Paris. As duas se reencontram em Nancy, quando Frances visita a cidade a trabalho. Mas a distância entre seus mundos pode impedi-las de ficar juntas novamente. UM DOS FILMES LGBT MAIS BADALADOS DOS ÚLTIMOS ANOS

Realização: PETRINI FILMES

Apoio: Embaixada da França e Institut Français.

 

 

 

 

 

 

A Itália dos “Cinepanettone”

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Amados pelo povo, odiados pela crítica e pelos espectadores esnobes, o Cinepanettone é o subgênero da comédia italiana que atingiu maior sucesso na história do cinema pós-Totó. O sucesso que falo não é só de bilheteria, mas também de costume italiano. A estréia de um cinepanettone no circuito sempre foi um evento: matérias nos telejornais, grandes propagandas na mídia e salas terrivelmente cheias no dia de Natal, onde uma das maiores tradições das famílias italianas é ir assistir esses filmes. Mas que filmes são? Porque não são conhecidos pelo público internacional? São bons ou ruins?

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Em 1983 o produtor Aurelio De Laurentiis entrou em contato os irmãos Carlo e Enrico Vanzina, respectivamente diretor e roteirista para realizar um filme chamado “Vacanze Di Natale” (trad. “Férias De Natal”). A escolha dos dois diretores pro filme veio por eles terem realizado a comédia “Sapore Di Sale”, nostálgica e melancólica comédia ambientada nos anos ’60, nas praias de Forte Dei Marmi. O filme, além de ser bem leve e agradável, foi também um boom de bilheteria. “Sapore Di Sale” mostrava as dinâmicas de um grupo de jovens durante as férias de verão; travestida de comédia bobinha, o filme dirigido por Carlo Vanzina era, na verdade, um estudo aprofundado de usos e costumes dos italianos dos anos ’60. Um filme leve, com trilha com os maiores sucessos italianos da época, atores em início de carreira (Jerry Calá, Christian De Sica, Isabella Ferrari) e grandes nomes como Virna Lisi.

A estréia de “Vacanze Di Natale”, no Natal de 1983, foi um grande sucesso, motivando Aurelio de Laurentiis a produzir, todos os anos, uma comédia nos mesmos tons do filme de estreia. E nesses dias, em 2013, o último filme da série dos Cinepanettone estreou em circuito italiano, “Colpi Di Fortuna”. São filmes que desde 1983 invadem os cinemas italianos, obrigando grandes produções hollywoodianas a mudarem de data no calendário de lançamentos.

O humorismo e a comédia, em certos filmes da série, são somente um pretexto para contar vícios e virtude dos italianos. Os cinepanettone contam o povo italiano com mais eficácia que muitos filmes de cinema “alto”.

O Contra O Cinema irá fazer um estudo aprofundado sobre o gênero, analisando os filmes um por um ao longo dos próximos dias.

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“Nitrato D’Argento” de Marco Ferreri, 1996

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Uma sala de 1000 lugares está lotada: não são espectadores, são manequins. Sem música, um silêncio ensurdecedor e doloroso preenche o cinema. Uma fumaça iluminada pelo feixe de um projetor de cinema aparece. A projeção há início. A “Toccata and Fugue” de Bach apresenta, como em uma ouverture os principais personagens do filme. É a primeira, estarrecedora e pessimista sequência de “Nitrato D’Argento”, último filme de Marco Ferreri, que o definiu como uma homenagem não ao cinema, mas sim aos seus espectadores, espécie em extinção segundo o próprio diretor: “Nitrato D’Argento” é um filme de cinema, para o cinema.

Em um cinema sumptuoso, no início do XX século, mulheres limpam o chão do foyer da sala. As filhas das faxineiras ficam brincando e gritando, enquanto uma delas admira o prédio e pergunta á mãe se aquela é a casa do Senhor: o cinema é a igreja de Marco Ferreri. E “Nitrato D’Argento” segue sua narrativa seguindo a linha do tempo da história do ‘900 quase exclusivamente dentro da sala de cinema (ou dentro seus filmes).

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No cinema, seu público é operário, emigrante, político, guerrilheiro, fascista, nazista, suicida, burro, genial, deficiente, ninfomaníaco, mendigo, intelectual, assassino, sedutor, cinéfilo, gay, transexual, santo, promíscuo, católico. Como uma suma do cinema de Ferreri, “Nitrato D’Argento” encerra com enorme pessimismo: repetindo a mesma imagem do início do filme, com uma sala cheia de manequins. Como se Ferreri pudesse de uma certa forma ter previsto a esterilização da maioria das salas cinematográficas (e, de consequência, do público).

Ferreri morreu um ano depois da realizar sua maior obra. Maior não só por dimensões, mas em todos os sentidos possíveis. Um épico, de uma tristeza devastadora e sutilmente romântico. Cinema de morte, porém imortal.

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Os problemas dos “Luíses” com o 36º Festival Guarnicê

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Recentemente escrevi sobre “Luíses – Solrealismo Maranhense”, filme que integrou a competição do 36º Festival Guarnicê de Cinema. O Festival Guarnicê foi o primeiro festival que frequentei em minha vida, aos 10 anos de idade, quando o Brasil estava em plena retomada. Tenho um carinho gigantesco por essa importante manifestação cultural, que é um dos festivais mais longevos no País. É, portanto, um festival que tem uma enorme responsabilidade na vida cultural da cidade.

Porém, infelizmente, as coisas não andaram pelo verso certo na edição 2013. Muitas as falhas organizativas, logísticas e de produção. O Éguas Coletivo Audiovisual, realizador do longa  “Luíses – Solrealismo Maranhense” divulgou a seguinte nota em sua página no Facebook.

“Carta aberta do Éguas sobre o 36º Festival Guarnicê de Cinema:

Em primeiro lugar gostaríamos de agradecer a todos que foram à exibição do LUÍSES – SOLREALISMO MARANHENSE e que proporcionaram o dia mais emocionante da vida de muitos que participaram deste filme. Ao final da sessão os aplausos, gritos e olhos emocionados retribuíram todo o esforço de mais de um ano de trabalho de todos nós. 
Apesar dos prêmios de Melhor Direção (Lucian Rosa), Melhor Direção de Arte (Kenny Mendes) e Melhor Ator (Lauande Aires), concedidos pelo júri-técnico, temos muito a exigir (organização do festival) e informar (pessoas interessadas):

 1) Nas exibições dos longa-metragens (que acompanhamos) não foram distribuídas cédulas para votação, negligenciando totalmente o prêmio de melhor longa-metragem (júri popular) de forma duvidosa e estranha, prêmio este que consta no programa do festival entregue a todos os espectadores. Também não houve anúncio desta premiação durante a solenidade. Este “deslize” prejudica todos os concorrentes, pois se trata de um prêmio muito importante e simbólico, mas pra quem frequentou o festival, sabe que prejudica em especial o LUÍSES – SOLREALISMO MARANHENSE, já que apenas nossa sessão entre os longas exibidos estava lotada e foi aplaudida de pé por mais de 300 pessoas. As outras sessões infelizmente, por desorganização do festival, escolha inapropriada de local (longe da cidade) e data (junto a feira do livro) estavam praticamente vazias. Com isso todos saíram perdendo. Ainda sobre este ponto perguntamos à Sra. Maria do Carmo, coordenadora de produção do festival, sobre o prêmio de melhor longa-metragem (júri popular) e a mesma afirmou que esse prêmio foi retirado nos últimos três anos por falta de longas concorrentes, o que não é verdade, pois ano passado existiu esse prêmio e foi entregue ao filme “As Batidas do Samba”.

2) Como já dissemos anteriormente o Éguas Coletivo Audiovisual nasceu no Festival Guarnicê de Cinema do ano passado (2012), em oficinas muito bem organizadas e em um festival, em sua maioria, também muito bem organizado. Mas a edição deste ano foi totalmente diferente. Soltaram algumas desculpas do porquê o festival estar tão desorganizado. Disseram até que se não fosse pelo esforço de alguns o festival nem aconteceria. Agradecemos o esforço destes, mas afirmamos que tudo isso é lamentável. Um festival dessa importância não pode ser tratado com descaso por seus responsáveis, seja quem for. Afirmaram também falta de dinheiro. Agora como pode faltar dinheiro tendo esses patrocinadores? Cadê esse dinheiro que, assim como aconteceu no ano anterior, tinha que ser usado para realizar oficinas, para trazer o debate com realizadores e para fomentar o cinema na ilha? Gostaríamos de mais transparência.

3) Não sabíamos oficialmente o horário correto da nossa sessão até momentos antes do festival. Mesmo assim confirmaram às 17h e só foi começar as 19h, fazendo com que muitos que esperavam ansiosamente a estreia do nosso filme tivessem que ir embora antes mesmo da sessão iniciar (total desrespeito com os espectadores). Este atraso prejudicou a todos. Recebemos o programa do festival no último dia com erros mais do que desrespeitosos, erros que comprovam o boicote à nossa produção. Erraram o nome do nosso coletivo (Éguas virou Águas), o nome do filme (Luíses virou Luise), cortaram nossa sinopse pela metade e ainda erraram o nome dos realizadores. Será tudo isso coincidência ou apenas incompetência? Não somos tão inocentes assim. Após a espera de mais de duas horas, o filme começa e permanece até o fim com uma linha branca na parte inferior da tela e com uma definição muito abaixo da enviada para o festival. O diretor do filme (Lucian Rosa), assim que percebeu o erro, logo no início da exibição correu para a sala de projeção para tentar solucionar o problema, mas a sala estava fechada. Ainda bateu na porta e ninguém atendeu. Após esse grave erro, que só aconteceu com nosso filme (entre os filmes que acompanhamos), e após o fim das sessões fomos educadamente conversar com o projecionista que não só nos tratou com desrespeito, duvidando do que afirmávamos, como pareceu totalmente ignorante se tratando de projeção, fora a incompetência na exibição, que ficou evidente. Agora por qual motivo contratam um projecionista de fora – sendo que tem pessoas competentes para fazer isso aqui – que desrespeita uma produção local e é incompetente? Como realizadores, esperamos sinceramente que ele não volte a ser projecionista do Guarnicê. Ele nos prejudicou em muitas categorias, pois mexer na definição de um filme é mexer no modo como o outro vê a obra como um todo. Isso não se mede. Isso não dá simplesmente para separar. Um filme que foi feito de maneira profissional pode ficar com cara de amador.

4) Mesmo com todos os erros na exibição, na euforia do momento, saímos felizes com a satisfação das pessoas estampada em seus rostos. Mas assim que veio o dia da premiação o desrespeito voltou e o boicote também. A premiação se deu de forma natural (com alguns pequenos deslizes da apresentadora) até o final e quando os organizadores já estavam despedindo-se do público presente, o júri levanta-se indignado afirmando ainda que faltavam dois prêmios a serem entregues, o de Melhor Direção Geral e o de Melhor Trilha Sonora, ambos para longa-metragem. O de Melhor Trilha Sonora foi rapidamente solucionado, mas o de Direção Geral demorou muito tempo. Todas as pessoas que estavam na premiação estavam revoltadas com tamanho desrespeito. O júri, em respeito aos premiados, esperava o festival se manifestar e após novos erros e muita espera, enfim anunciaram corretamente os premiados, pra felicidade geral de nossa equipe e envolvidos. Ficou claro pra todos os presentes que se não fosse pela insistência do júri a organização do festival também nos tiraria esse prêmio. 

Perguntamos o porquê de tamanho boicote e falta de respeito? É porque criticamos a Vale? É rabo preso com políticos? Vivemos uma ditadura onde não se pode mais criticar a empresa patrocinadora do festival ou nossos governantes? Estamos a mercê do capital privado para honrar o mérito dos realizadores do cinema nacional? Foi pura incompetência? Não somos tão inocentes.

Nós não vamos ficar calados até esses erros serem solucionados. Exigimos isso em respeito aos espectadores, em respeito à liberdade de expressão e em respeito ao cinema nacional. O boicote não acontece apenas por parte do festival mas também por parte da mídia (isso já era esperado). Após a exibição de LUÍSES – SOLREALISMO MARANHENSE o silêncio é absoluto. Praticamente nada sai na mídia maranhense a respeito da premiação do festival. A inoperância da mídia é tamanha que o realizador de “Nem Caroço, Nem Casca”, Will Martins entrou em contato conosco pra saber se foi vencedor de algo. A lista dos vencedores está atrasada. 

Esta carta foi feita com o objetivo de que ano que vem o festival, sua história e os maranhenses sejam respeitados – e que o prêmio de melhor longa-metragem (júri popular) seja destinado aos que merecem, por justiça, e por respeito também aos espectadores presentes que tiveram seu direito de votação negado pela organização do evento. Gostaríamos de convocar todos os realizadores participantes à fazer a mesma solicitação à organização do festival.

Lamentável que esse tipo de coisa ainda ocorra em nosso estado. Ainda assim, tivemos uma sessão histórica e emocionante.

Obrigado Luíses!

Ass: Éguas Coletivo Audivisual”

Outros realizadores se manifestaram contra a (des)organização do Festival Guarnicê: filmes selecionados e depois excluídos na programação, filmes exibidos em DVD screener, site desatualizado, atrasos, programação mal organizada… Ha alguns anos o Festival Guarnicê virou um nômade, procurando sua residência: em 2010, do Cine Praia Grande passou para o Centro De Convenções Pedro Neiva de Santana, estrutura mastodôntica, totalmente escondida e afastada da vida cultural da cidade. Com pouca divulgação, cheguei a ser um dos dez espectadores na sala de 1500 lugares em uma sessão. Naquele ano, registrei a falta de pontualidade nas projeções, muitos filmes ficaram com horários invertidos, ou que até mesmo não foram exibidos.
Em 2011 passou do desastroso Centro De Convenções para a UFMA. No ano passado, depois da UFMA passou para o Teatro Municipal, ex-cine Roxy (reformado com a intenção de ser Cine-Teatro Da Cidade e depois inaugurado às pressas em ano eleitoral como Teatro Da Cidade, mas essa é outra história): naquele ano a manifestação registrou boas presenças e foi até aplaudida, mas permaneceram falhas de horário, de som e de projeção. Além disso, a programação exibia como grandes eventos, exibições de longas que já tinham entrado em circuito alguns meses antes do evento (coisa que se repetiu esse ano).
E veio a edição 2013: de volta para o Auditório Central da UFMA. Entendo a necessidade de criar um Festival que envolva a Universidade: é uma boa interação e até necessária, em uma cidade que a produção cinematográfica está se erguendo; porém, a escolha de exibição na UFMA exclui uma grande parte dos moradores de São Luís: é um local bem afastado, de difícil acesso, com um trânsito desesperador em horários de pico.
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Como se não bastasse, filmes tiveram sua exibição cortada abruptamente: o documentário Mina Da Liberdade, da realizadora Mariana Venturim foi prejudicado, segundo quanto publicado na página oficial do filme:
“Apesar do prêmio recebido, tamanho desrespeito e falta de profissionalismo devem ser divulgados, inclusive quando se pressupõe um boicote a uma produção cujo conteúdo trata a religião afro brasileira com o respeito que deve ser abordada. A exibição do Mina Da Liberdade no 36o Guarnicê Festival de Cinema foi interrompida (a princípio por motivos técnicos) e logo em seguida, sem nenhum anúncio ou pedido de desculpas ao público, começou um outro filme, de conteúdo explicitamente católico. Seria isto uma tentativa boicote ao filme e ao seu conteúdo? Representa um não à cultura afro brasileira em pleno Estado do Maranhão, terra vivamente ocupada pela população afro descendente e indígena. Fica aqui o nosso repúdio à falta de respeito e profissionalismo do Festival e à qualquer tipo de intolerância à religião afro brasileira. “
O Festival reclama da falta de dinheiro, problema comum a todas as manifestações: porém, podemos ver que os problemas apontados pelos realizadores que protestaram contra a gestão do festival são problemas meramente organizativos. E não são casos isolados, nas outras edições testemunhei pessoalmente essas falhas de organização. O amor pelo cinema não transpareceu nas últimas edições do Festival: a cinefilia, a paixão e carinho pelo cinema estão bem longe.
E falo isso não em tom acusatório ou polêmico, mas com muita mágoa e tristeza, pois é um evento de enorme importância para a cidade; um evento à deriva, literalmente.