(Contra) O Cinema de Guy Debord

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Vinte e oito de dezembro é um dia que merece ser sublinhado no calendário por dois motivos especiais: marca a primeira aparição pública da maior forma de arte que a humanidade já conheceu com os irmãos Lumiére em 1895, e, o nascimento do maior teórico crítico do século XX, a saber, Guy Ernest Debord em 1931.

Todavia, o que merece destaque aqui é o fato de que enquanto Auguste e Louis se limitaram a exibir pequenas historietas de caráter documental (Chegada de um Comboio à Estação da Ciotat, A Saída da Fábrica Lumière em Lyon etc.), Debord (já algumas décadas a frente é claro) investiu no extremo oposto.

Através de um jogo de corte e recorte de imagens, textos, sons, falas etc. aparentemente gratuitas Guy Debord erigiu uma obra cinematográfica extremamente radical, mesmo para os nossos dias. Ao realizar Uivos para Sade (1952), Sobre a Passagem de Algumas Pessoas Através de Uma Curta Unidade de Tempo (1959), Crítica da Separação (1961), A Sociedade do Espetáculo (1973), Refutação de Todos os Julgamentos, Tanto Elogiosos Quanto Hostis, que Foram Feitos Sobre o filme “A sociedade do espetáculo” (1975), In Girum Imus Nocte Et Consumimur Igni (1978), o filme Guy Debord, sua arte e seu tempo (1994) (com o auxílio de Brigitte Cornand para o Canal + da França), teve como horizonte os mesmos axiomas utilizados em suas obras teóricas, ou seja, uma crítica radical do que chamou de espetáculo.

Debord não se considerava um escritor do mesmo modo que não se chamava cineasta, seus filmes distanciaram-se radicalmente do mundo da cinematografia, tanto quanto ele próprio distanciou-se de seus contemporâneos escritores, com isso, não constitui novidade o completo ostracismo da historiografia cinematográfica diante de sua obra fílmica radical.

Em verdade, os fatos descritos tornam-se compreensíveis quando observamos que a obra cinematográfica debordiana é atravessada pelo caráter teórico-crítico, ou seja, não se trata aqui de uma mera atividade estética e/ou gratuita, tal como acontecia (e acontece) majoritariamente na indústria da chamada sétima arte. Ao contrário, o cinema de Guy Debord estava intimamente relacionado à sua estratégia, articulação e comunicação antiespetacular.

O tipo de obra cinematográfica construída, desde uma perspectiva crítica, volta-se contra o espetáculo, ou seja, a partir do desviamento, do recorte, da ressignificação de textos, contextos, imagens, frases e teses, seus filmes mostram uma realidade inconveniente para o mundo realmente invertido: a sua própria face em putrefação. Por exemplo, no início do filme A Sociedade do Espetáculo (1973) somos advertidos de que “no desvio de filmes pré-existentes foram utilizadas as seguintes obras: John Ford, Rio Grande; Nicholas Ray, Johnny Guitar; Josef von Sternberg, Shanghai Gesture (…)” etc.

A partir da prática do Desvio (détournement) Debord constrói imagens em movimento que se tornam o seu contrário, ou seja, trata-se de “(…) usar do mesmo modo os discursos do adversário contra ele mesmo. Isso não se limita naturalmente à língua falada“. Disso resulta o alcance e significado das criações cinematográficas debordianas: para além de produtos de entretenimento, o cinema deve portar-se como construtor de situações. Este é, em última instancia, o elo comum em toda a obra escrita e audiovisual de Guy Debord.

Contra o Cinema é o título da obra de Debord publicada em 1964 contendo os roteiros e fotogramas dos seus três primeiros filmes. Título curiosamente desviado para o uso deste portal cinéfilo na rede mundial de computadores. Criamos uma situação? Só o tempo dirá. Por hora, viva o cinema! – E que o cinema viva contra o cinema espetacular!

 

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