NÃO QUERO SER COMO ELES, ELES QUEREM SER COMO EU – O DEMÔNIO DE NEON, DE NICOLAS REFN (2016)

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Se em Drive (2011) o protagonista tem significativa dificuldade em se relacionar com o mundo exterior e passa quase a totalidade do filme introspectivo, em o Demônio de Neon (2016) Nicolas Winding Refn nos apresenta uma situação extremamente oposta: a protagonista deslancha e escala de forma ímpar no universo da moda, todavia, sem conseguir furtar-se em pagar o devido preço por este êxito.

A trama, com uma curva dramática nada convencional, diga-se de passagem, narra a ascensão e queda de Jesse (Elle Fanning), uma jovem de apenas dezesseis ano de idade que destituída de outros talentos (como escrita, dança etc.) resolve se utilizar de seu único dom natural, a saber, ser incrível e naturalmente linda, para ganhar muito dinheiro e fama.

O primeiro plano do filme apresenta nossa personagem principal numa situação sugestiva: supostamente morta em um ensaio fotográfico. Em seguida, enquanto a mesma tira sua maquiagem num camarim, descobrimos que esta acabara de ser contratada por uma conceituada agencia de modelos e conhece Ruby (Jena Malone) – e posteriormente Dean (Karl Glusman) – eixo a partir do qual a persona da mais recente top model oscilara.

Jesse, que havia alugado um quarto barato no hotel de Hank (Keanu Reeves, o eterno Neo de Matrix (1999), após ter a oportunidade de ouro de encerrar o desfile de uma renomada coleção de grife, bônus que lhe subirá a cabeça e será responsável em seguida por sua desavença com Dean – que afirma estar começando a desconhecer a até então encantadora e humilde garota – volta para sua morada e deita-se na cama, como se não conseguisse acreditar em tudo que estava vivendo, como se estivesse diante de um sonho, uma fantasia que se tornava realidade. Todavia, devemos lembrar que tudo que é do nível da fantasia tende a entrar em choque quando colocado nas contingencias do real…
Embebida pelo clímax de sua existência, Jesse sucumbe a uma estranha visão durante seu estado de sono: um invasor em seu quarto. Ao acordar do pesadelo, percebe que o acontecimento estava prestes a se tornar realidade, pois, de fato havia alguém tentando arrombar a sua porta. No entanto, a protagonista consegue impedir o caso, o que faz com que o estranho visitante se dirija ao quarto ao lado e permita que suas intenções sejam conhecidas por Jesse, que por seu turno passa a escutar e descrever atentamente os acontecimentos, em uma cena que nos lembra frontalmente A Conversação (1974) de Francis Ford Coppola.

– Parece que ele a está matando (Jesse).
– Você consegue sair? (Ruby).
– Eu acho que sim (Jesse).
– Venha aqui. Você ficará a salvo (Ruby).

Quando o encontro entre Jesse e Ruby se concretiza no meio da madrugada, começamos
a perceber as intenções desta última, que após ser sexualmente rejeitada pela primeira, decide radicalizar, e em uma demonstração de desespero e frustração comete um ato bastante incomum, em um necrotério onde também presta serviços estéticos.

Por seu turno, Jesse sabe que é linda, e acredita poder contornar situações e mover o
mundo ao seu bel prazer por conta do poder que isto lhe acarreta. Todavia, Ruby, com o auxílio de Gigi (Bella Heathcote) e Sarah (Abbey Lee Kershaw), modelos que entraram em gradativa decadência com o aparecimento de Jesse, resolve mostrar a jovem garota que diante de um mundo consolidado esforços individuais tendem a ser neutralizados.

De forma bastante direta, o que vale destacar aqui é o fato de que apesar do filme fazer duras críticas a futilidade, competitividade e superficialidade do mundo da moda, desde uma perspectiva interna, o fato é que em o Demônio de Neon, sobram planos estéticos gratuitos (muito embora seus defensores façam uma ode à necessidade do tom que o uso do Neon implica à estética do filme), pontas soltas no roteiro etc. que fazem que ao revés de se apropriar de um determinando discurso e torna-lo no seu contrário, o trabalho termine por sucumbir no mesmo, ou seja, estancando no contexto que pretendia superar.

Mais ainda, o filme investe demasiadamente em alguns contrastes: de uma cena
absurdamente escura pulamos para um estúdio de fotografia completamente branco. A intenção é boa, mas, o excesso de uso acaba desgastando a fórmula.

Ainda assim, há momentos onde a fotografia é impecável e por isso o trabalho de Natasha
Braier é louvável. Gostaríamos de destacar aqui a tomada do banheiro em uma festa no começo do filme onde azul, rosa e verde se mesclam de forma harmoniosa, e, o mesmo vale para a trilha de Cliff Martinez, cujo resultado fora bastante feliz. O uso de espelhos em enquadramentos também é outro aspecto que merece destaque, por exemplo, ainda no início do filme de uma só vez temos plano e contra plano entre Jesse e Ruby, fazendo com que o corte propriamente dito torne-se mera formalidade.

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Atualmente a nota do Rotten Tomatoes para o mais recente trabalho de Refn oscila entre
55 e 56% de aprovação. Destarte, por todos os aspectos citados o Demônio de Neon, apesar dos seus problemas internos, é um filme que vale a pena ser apreciado, sobretudo por aqueles que desconhecem e/ou não alimentam esperanças de um filme tão grandioso quanto o que se tornou Drive (2011), como foi o nosso caso.

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