Seis lições sobre o suspense em Alfred Hitchcock

Entre os dias vinte e nove de junho e dois de julho de dois mil e dezessete o Cine Praia Grande realiza a mostra Alfred Hitchcock, oferecendo ao seu público a projeção de seis grandes clássicos do cinema mundial, mais ainda, uma oportunidade ímpar para se (re)descobrir algumas lições, do assim chamado, mestre do suspense.

Hitchcock, parece-nos, tornou-se ao longo do tempo um grande incentivador do voyeurismo, não são raras as oportunidades que ele oferece ao seu telespectador para ver e/ou rever algo ainda mais de pertinho, querendo assim conhecer melhor a situação, sem pressa e como se este fosse o ato mais sagrado de toda a face da terra naquele momento, pois bem, Janela Indiscreta (Rear Window, 1954) é o filme que exprime a postura sexual supracitada de forma ímpar. A obra é estrelada pelo veterano James Stewart (Jeff) e pela imortal Grace Kelly (Lisa) e se passa inteiramente dentro de um apartamento, pois, seu protagonista encontra-se impossibilitado de locomoção devido a uma perna engessada. Pela sua janela Jeff observa o mundo ao seu redor (coisa rara em nossos dias) e se depara com cenas indiscretas, tal como a de um crime friamente cometido. Destarte, mais do que um exercício de contemplação, Rear Window incita a intervenção num mundo desordenado.

Psicose (Psycho, 1960) é sem dúvidas o filme mais conhecido de Alfred Hitchcock e um dos maiores clássicos de toda a história da sétima arte. A história que começa com o furto de uma gorda quantia em dinheiro transforma-se na saga de um serial killer que internalizou a personalidade da mãe e tenta proteger esta relação a todo custo: eis um perfeito exemplar do famoso complexo de Édipo. A fascinação por tal obra é tamanha que desencadeou em outros realizadores uma série com continuações, remakes, revivals etc. Por exemplo, Anthony Perkins (o protagonista do filme de Hitchcock) estrela em 1983 o Psycho II, dirige em 1986 o Psycho III e volta a ser o protagonista da franquia em 1990 com o Psycho IV: a revelação. Por seu turno, em 1998 Gus Van Sant refilma milimetricamente os mesmos planos do Psycho originário, contudo, sem atingir a aura criada em torno da película do mestre do suspense. Mais ainda, há uma notável adaptação estendida do argumento na série Bates Motel (2013-2017), que insere Norma e Norman Bates de forma brilhante no século XXI.

Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958), talvez o melhor filme de Hitch, narra a história de um policial recém aposentado, John “Scottie” Ferguson (James Stewart), que sofre de vertigem, ou seja, um medo “patológico” de altura devido a um incidente de trabalho onde um colega acabou morrendo, e é contratado por um antigo amigo para seguir a esposa deste, a bela loira Madeleine Elster – e depois Judy Barton como descobriremos – (Kim Novak) que segundo o marido, está estranhamente tomada pelo espírito de sua avó Carlota Valdes, que se suicidara exatamente com a mesma idade de Madeleine, 27 anos. Scottie passa a seguir Madeleine buscando compreender o comportamento da mesma, mas, o que ele não sabia, e nem tampouco nós como espectadores sabemos no começo do filme é que tudo não passa de uma farsa, para ambos, pois, Madeleine tem total conhecimento que está sendo seguida por Scottie. Trata-se, portanto, de um jogo de aparências para ambos, onde a fantasia triunfa sobre a realidade.

Os Pássaros (The Birds, 1963) apresenta a intrigante história (de amor) entre a jovem socialite Melanie Daniels (Tippi Hedren) e o advogado Mitch Brenner (Rod Taylor) que são acometidos por uma inexplicável onda de ataques pelos pássaros da cidade de Bodega Bay. Mais uma vez o tema edipiano é expresso na trama hitchcockeana, contudo, parece-nos que uma chave de leitura possível para este filme encontra-se na sua interrupção repentina, afinal, há questões da existência humana que permanecem sem respostas racionais, ou seja, os instintos primitivos são indomáveis.

Rebecca: a mulher inesquecível (Rebecca, 1940) é talvez o melhor dos filmes da fase britânica de Hitch e celebra sua parceria com o produtor David O. Selznick. A trama apresenta uma linda mulher (Joan Fontaine) que se torna a segunda esposa de George Fortescue Maximilian “Maxim” de Winter (Laurence Olivier). O que começa como um conto de fadas logo se torna um pesadelo psicológico, pois, a nova Sra. de Winter passa gradualmente a viver na sombra da sua antecessora: Rebecca. Todavia, a reviravolta que acontece na trama comprova que há verdades que não são o que parecem.

Interlúdio (Notorious, 1946) é um filme, protagonizado pelas superestrelas Cary Grant (T.R. Devlin) e Ingrid Bergman (Alicia Huberman), que apresenta a história da filha de um adepto do partido nazista alemão que é chantageada, por um agente secreto americano, para se casar com um agente alemão, a fim de fornecer informações sigilosas ao Tio Sam. Genialmente, o filme que se passa no Rio de Janeiro (onde Hitchcock jamais esteve) não cai na tentação de mostrar um país exótico e/ou estereótipado, como é comum numa clássica visão eurocêntrica de mundo, todavia, é um dos raros momentos onde as posições políticas conservadores de Hitchcock transparecem.

Destarte, os seis filmes supracitados são uma excelente introdução à larga filmografia de Hitchcock, que em sua totalidade passa das cinco dezenas, mais ainda, são atravessados por lições que atualizam constantemente a insígnia de mestre do suspense ao eterno aficionado pelos desejos mais profundos dos seres humanos.

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