A emergência da teoria-prática revolucionária: O Jovem Marx de Raoul Peck (2017)

Nenhuma crítica é isenta do seu próprio posicionamento, se o fosse não seria crítica, portanto, tratar de um assunto que reside em suas próprias entranhas é sempre uma tarefa árdua para todo e qualquer autor, é necessário realizar, então, uma crítica da crítica crítica. Ora, Peter Bradshaw, um dos mais respeitados críticos de cinema do jornal The Guardian (UK), a respeito do recente trabalho do veterano cineasta haitiano Raoul Peck escreve que “a ação do filme prossegue a uma taxa constante e intensa [porém, por esta a obra] não deve funcionar, mas sim, devido à inteligência da atuação e da resistência e concentração da escrita e direção”, de fato, mas isto não é tudo.

Há em o Jovem Marx (Le jeune Karl Marx) um falatório sem fim, isso é bem verdade, mas, será que poderia ser diferente? Desfilam pelos extensos diálogos do belo roteiro, que consegue mesclar fatos biográficos e históricos à licença poética característica de um diretor conhecido em Cannes, personas de renome filosófico-político atemporal. Karl Marx (August Diehl) em uma versão modesta e quase que predominantemente afável até mesmo para com seus detratores, Friedrich Engels (Stefan Konarske) retratado como um enxadrista ponderado e pouco apegado a vida boêmia, Jenny von Westphalen (Vicky Krieps) e Mary Burns (Hannah Steele ) que merecidamente recebem papeis de destaque que costumam escapar à historiografia vulgar, Pierre-Joseph Proudhon (Olivier Gourmet) ciente de sua limitação linguística, porém, a anos luz de sua origem camponesa, além é claro, dos mais notáveis entre os jovens hegelianos.

Ainda assim, não falta à produção uma direção ímpar para o status quo da indústria cinematográfica. Se o cinema não é um anexo da literatura, conforme esperamos, faz-se necessário que o recurso próprio à sétima arte esteja presente de corpo e alma, a imagem propriamente dita, e este é o caso. Afinal, a paleta de cores (em que predominam os tons acinzentados e só esporadicamente surge o vermelho, antítese da estética esperada para um filme com temática comunista), a contradição do figurino (que acerta de forma primorosa com os proletários e erra de forma desastrosa com a assepsia dos revolucionários) e o design de som (que marca o tom caótico da vida privada de pessoas em constante nomadismo) transportam-nos para uma dimensão pouco explorada pelo cinema alá hollywood, uma época vivida de forma intensa, dando a cada imagem construída por Peck um valor de uso (com a licença econômica do termo) bastante singular.

Porém, Bradshaw, no recorte supracitado, observa ainda que o filme não trata propriamente sobre o jovem Marx, mas sim do bromance entre este e seu amigo Engels, engana-se. A situação tem papel de destaque, contudo, o que salta aos olhos é a construção do assim chamado pensamento marxiano, a emergência da teoria-prática revolucionária numa curva dramática típica dos nossos manuais de roteiro, o materialismo que é histórico pelo fato de ser dialético, forjado, por assim dizer, pelas três fontes largamente conhecidas. 1) a filosofia alemã (a dialética de Hegel), retratada no círculo frequentado por Marx no primeiro ato do filme, 2) a política francesa (oriunda do socialismo de Proudhon), que corresponde a ida do protagonista para Paris, no segundo ato, e enfim, 3) a economia inglesa (de Ricardo e Smith), no terceiro ato estendido, marca indelével do encontro entre os autores de A Situação da Classe Trabalhadora da Inglatera e das Teses Contra Feuerbach.

E por falar nas famosas teses, cabe lembrar aqui, que a décima primeira destas é sem dúvidas o pano de fundo de todo o drama arquitetado por Peck, afinal, se “os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras, o que importa agora é modificá-lo” em sua totalidade, e é justamente isso que acontece, ou quase. Ora, não faz o mínimo sentido uma leitura parcial, contemplativa, desta obra (como o bromance de Bradshaw, p. ex.), pois, a teoria-prática marxiana é o que emerge, de forma imanente, das imagens em movimento do cineasta haitiano.

Mas, nem tudo são flores, o epílogo de Peck é omisso e demonstra a sua limitação, fazendo com que O Jovem Marx seja comportado na forma e insuficiente no conteúdo. Afinal, se o filme não transgride nenhuma regra do cinema e se mostra formalmente regular, no seu último instante a situação se torna deprimente. As grandes experiências da herança histórica, a luta de classes, deixada por Karl Marx são evocadas, porém, logo fazem Bradshaw afirmar, com absoluta razão, que “não há Stalin, nem Lenin, nem gulags, nem Erich Honecker na montagem” de fato, no recorte do diretor haitiano não há espaço para o negativo.

O crítico do The Guardian esqueceu-se de acrescentar, em termos dialéticos, que a existência das experiências históricas derrotadas (seja pela burocracia interna ou pelo sufocamento externo etc.) fundamentam o projeto de emancipação da humanidade, tornando a teoria-prática revolucionária, inimiga de toda ideologia revolucionária, fundada por Marx e Engels, cada vez mais contemporânea. Coincidentemente, o filme ainda não tem data exata para estrear no Brasil, embora já tenha participado do Festival de Cinema de Berlim.

 

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