Um bicho que o universo fabricou e vinha sonhando desde as entranhas: Um maranhense chamado José Ribamar – a arte existe porque a vida não basta de Zelito Viana e Gabriela Gastal (2016)

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Enquanto Meu Malvado Favorito 3 (de Pierre Coffin e Kyle Balda), Transformers: o último cavaleiro (de Michael Bay) e Homem-Aranha: de volta ao lar (de Jon Watts) monopolizam as grandes salas de cinema da terra natal de José de Ribamar Ferreira, vulgo Ferreira Gullar, o média-metragem que se propõe a retratar sua vida e obra estreia exclusivamente naquele que parece ser um dos últimos centros de cultura cinematográfica na Sarneylândia.

Três aspectos centrais da produção cultural de Gullar são abordados no filme Um maranhense chamado José Ribamar – a arte existe porque a vida não basta (2016), a saber, o ofício de poeta, letrista e artista plástico. Com um roteiro milimetricamente construído e assinado por Nelson Motta, que, grosso modo, constitui-se no encadeamento lógico de poesia > canção > escultura e depois mais poesia > canção > escultura ad infinitum, o filme recorta aquilo que é mais interessante para a perpetuação da imagem de alguém que se tornou imortal: sua inconteste reflexão e inflexão ininterrupta em torno das criações espirituais da humanidade. Porém, o Gullar que com os calos dos anos se tornou extremamente elitista e politicamente rasteiro, para se dizer o mínimo, escapa à tela. Que coincidência!

Todavia, deve-se ter sob os olhos que apesar dos pesares, o filme dirigido por Gabriela Gastal (Chico Buarque: na carreira, Navilouca: Pedro Luís e a parede ao vivo etc.) e pelo dinossauro do cinema novo brasileiro, Zelito Viana, é uma incontornável experiência com a sétima arte. E os motivos para isto são categóricos, afinal, o agridoce reveste toda a “trama”.

Estamos diante de experts, desde a leitura dramática dos fragmentos de poesias (que parte de Dentro da Noite Veloz e do Poema Sujo e se estende até aos textos mais recentes) que oscilam entre a dor e o riso do narrador/alter ego de Gullar (protagonizado pelo veterano Marco Nanini) até as interpretações (de Adriana Calcanhotto, Paulinho da Viola e Laila Garin) das canções escritas pelo maranhense autoexilado de sua pólis originária.

A fotografia, que dá a atmosfera determinante nos momentos supracitados, é assinada por ninguém menos que Walter Carvalho (sim, o mesmo de Carandiru e Amarelo Manga etc.) e Jacques Cheuiche (Jogo de Cena, Edifício Master e O Diabo a Quatro), e, é viabilizada pela lendária Mapa Filmes.

Enfim, entre um acaso e outro em seu processo criativo, Gullar demonstra-nos, com a sua própria morte e vida, que sua poesia sempre foi certeira. Afinal, menos de doze meses após a rede mundial de computadores veicular com tacanha tristeza sua notícia de óbito, as palavras do seu Magnum Opus ganham absoluto sentido. “Corpo meu corpo, corpo (…) que se para de funcionar provoca um grave acontecimento na família: sem ele não há José de Ribamar Ferreira não há Ferreira Gulllar… e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta estarão esquecidas para sempre.” Que Caronte perdoe esta fatalidade.

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