AQUARIUS: Os Amores De Clara

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Clara tem 65 anos, três filhos adultos, netos, sobrinhos, amigas, centenas de discos de vinil e um cartaz gigantesco de Barry Lyndon na sala de um apartamento que é também um pedaço do corpo dela. Amores. Clara é rodeada de amores desde a primeira sequência, em 1980, durante o aniversário de 70 anos da Tia Lúcia, onde o discurso de confraternização da família resume em poucos minutos a jornada nada fácil de Clara contra um câncer. Clara e seu apartamento no Edifício Aquarius merecem toda a paz conquistada ao longo de mais de trinta anos.

Basta o prologo de vinte minutos para deixar claro ao espectador de que está testemunhando o acontecimento de um dos pontos mais altos da era digital do cinema nacional. Fotografias, zoom (novamente o fantasma de Kubrick e de Barry Lyndon), Queen em fita cassete, Altemar Dutra e Gilberto Gil em vinil, crianças brincando no corredor, o filho de Clara com a camiseta do cigarro Hollywood, uma espiada nas empregadas fumando um cigarro e bebendo uma merecida cerveja gelada imprimem um exotismo brasileiro espontâneo e nada forçado.

2016. A rotina de Clara é uma das mais invejadas: acorda, pratica exercícios físicos ao som de “Toda Menina Baiana”, faz um mergulho na praia de Boa Viagem, assessorada pelo salva-vidas Roberval (um Irandhir Santos em grande forma) e aguarda o almoço da empregada/amiga Ladjane.

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O mundo ideal que é o apartamento de Clara é ameaçado pela Construtora Bonfim (segunda maior construtora de Recife, que “perde somente pela Pinto Engenharia”): todos os apartamentos do Edifício Aquarius foram vendidos e ela é a única ocupante do prédio. Não tem intenção alguma de vender o prédio e é alvo de terrorismos psicológicos por  parte da construtora, de uma filha, de ex-vizinhos do prédio.  A construtora fará o possível para expulsar Clara de seu apartamento, para construir o “Atlantic Plaza Residence”.

Depois de “O Som Ao Redor”, o cinéfilo Kleber Mendonça Filho acerta em cheio realizando um filme divertido, popular e fácil que ao mesmo tempo consegue ser extremamente cinéfilo e refinado, embebido de grande cinema com delicadas referências a Brian De Palma, David Cronenberg e Stanley Kubrick. O sucesso de Aquarius pode ser realmente a luz no fim do túnel quanto a possibilidade de fazer cinema popular em conjunção com um cinema mais autoral e inovador, como no ano passado Que Horas Ela Volta demonstrou claramente.

Sonia Braga imprime na história do cinema brasileiro uma personagem que será lembrada ao longo dos anos como os icônicos Lorde Cigano de “Bye Bye Brasil” ou como Dora de “Central do Brasil”. É aliás, muito mais que isso: é uma pessoa que nós espectadores sonharíamos em ser recebidos no apartamento dela, relicário de discos, livros e filmes (não importa o suporte, mas o vinil “carrega uma história”). É a amiga que gostaríamos de encontrar no clubão e convidar para dançar ao som de Reginaldo Rossi. É a mãe que todos os brasileiros merecem ter. E Sonia é a atriz que o cinema brasileiro merece.

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