Cinepanettone: a série de filmes italianos que você nunca ouviu falar – Parte I

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Amado pelo público e odiado pela crítica (que o perdoou somente vinte anos depois): o Cinepanettone é um subgênero da comédia à italiana, que inicia em 1983 com a estreia do filme Vacanze di Natale, de Carlo Vanzina. O nome é um neologismo, criado no ano 2000, em um artigo do jornal de Giuliano Ferrara “Il Foglio” sobre o lançamento de Bodyguards. Usado inicialmente como depreciativo, o adjetivo cinepanettone se tornou o nome oficial do gênero de comédias lançadas no Natal pelo grupo Filmauro, que incluem quase sempre o mesmo elenco e time de roteiristas, diretores e técnicos.

Com um registro tipicamente popular, o cinepanettone sempre foi acusado de ser vulgar e de promover uma Itália consumista, de direita e classista, até ser redescoberto e perdoado por certa crítica em 2002, com o lançamento de Natale Sul Nilo, filme que marcará a maior bilheteria da história do cinema italiano até então, superando filmes como A Vida É Bela. Na verdade, o cinepanettone é uma sátira social da burguesia médio-alta tão eficaz quanto um A Grande Beleza, que retratou ironicamente os intelectuais italianos de classe alta.

O cinepanettone é uma paródia da sociedade italiana como um todo: ricos, pobres, falidos, vulgares, populares, príncipes, operários, moleques, top-models… todos entram nestes filmes-caldeirão, que entram em cartaz sempre na penúltima sexta do ano, para lotarem as salas do país inteiro entre 24 e 31 de dezembro. Ir ver um cinepanettone no cinema é o ritual social de milhares de famílias italianas: ninguém se importa pelos peitos, bundas, peidos e palavrões dos quais estes filmes estão encharcados! Tudo é lícito para conseguir uma risada.

Não existe continuidade entre os cinepanettone (exceto em casos específicos como os dois Yuppies e em A Spasso Nel Tempo) e geralmente são ambientados no Natal durante férias e viagens. Há algumas exceções, onde o cinepanettone não é de tema natalino, como Yuppies, Montecarlo Gran Casinó ou o belíssimo e amargo Sognando La California. A trilha sonora dos cinepanettone mereceria um artigo à parte, com hits do momento, que posicionam o filme num cronograma histórico preciso.

Não tenho registro de estreia no Brasil de nenhum destes filmes. Aliás, muitos deles nunca saíram da Itália, com exceção de Merry Christmas e Natale Sul Nilo, que tiveram coprodução espanhola e de S.P.Q.R. – 2000 e ½ Anni Fa, que entrou em cartaz em alguns mercados graças à presença de Leslie Nielsen.

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O único filme disponível no home-video brasileiro que se aproxima de um cinepanettone é Clube Dos Mulherengos (South Kensington) de Carlo Vanzina, que dirigiu o filme pela Medusa, produtora e distribuidora de Silvio Berlusconi, e lançado (fracassando nas bilheterias) no mesmo dia do cinepanettone Natale Sul Nilo: Clube Dos Mulherengos (que título brasileiro infame!), é uma comédia romântica sobre um lorde inglês falido (Rupert Everett) que aluga os quartos de seu casarão para neo-yuppies italianos. O filme seguirá rolos e desenrolos românticos dos italianos e de Rupert Everett, com uma esplêndida Elle Macpherson. A versão disponível no Brasil é bem mais refinada e menos vulgar; para piorar a situação, a cópia é em full-screen e dublada em inglês.

Não podemos começar a falar dos cinepanettone sem mencionar Sapore Di Sale, de Carlo Vanzina de 1982. Uma comédia ambientada nos anos ’60 que foi um estrondoso sucesso de bilheteria e que mostra a história de um grupo de adolescentes em um vilarejo de praia durante as férias de verão: amores, dores, sexo, traições, etc. Reza a lenda de que na première de Sapore Di Sale, no meio da projeção, o produtor Aurelio de Laurentiis, diretor da Filmauro, levantou da cadeira e foi procurar Carlo Vanzina e os atores do filme, contratando-os para realizar um filme parecido para estrear seis meses depois. O resultado é o primeiro cinepanettone e provavelmente a comédia mais influente da história do cinema italiano, Vacanze Di Natale.

O cinepanettone encerra com o pontual Vacanze Di Natale A Cortina de 2011, escrito por Carlo Vanzina e dirigido pelo mestre Neri Parenti. O filme encerrará uma era do cinema italiano. A partir dos anos seguintes, a Filmauro realizara comédias mais refinadas, sem vulgaridades e sem a verve dos anteriores. Recentemente o contrato com Neri Parenti, diretor de quase a metade dos cinepanettone venceu e o diretor não quis renovar, por conta de não ter mais a liberdade artística anterior. Assinou então um contrato com a Medusa Film, para realizar Vacanze Di Natale Ai Caraibi, que estreia neste Natal de 2015.

 

VACANZE DI NATALE (Férias de Natal) de Carlo Vanzina, 1983

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Cortina D’Ampezzo, 1983. Localidade onde as famílias da alta burguesia milanês e romana passam pontualmente suas férias de Natal em caros hotéis e em villas majestosas. Os Covelli são uma família de riquíssimos construtores: o patriarca Giovanni Covelli (Riccardo Garrone, o dono da casa da sequência da orgia de A Doce Vida), cansado da rotina de sua insuportável esposa e de seus filhos que aproveitam com grandes farras as finanças do pai. Em contraposição, chegam em uma utilitária os Marchetti: o pai Arturo (um mítico Mario Brega, na vida real fruteiro de Sergio Leone), acompanhado de esposa oversize e sogra reclamona. Junto a eles o filho Mario (Claudio Amendola), que se apaixonará por Samantha (Karina Huff), namorada de Roberto Covelli (Christian De Sica, filho de Vittorio, verdadeira alma e guia espiritual dos cinepanettone). Todos os personagens passam as noites em um bar onde toca o pianista-playboy Billo (Jerry Calá, aplaudido em Berlim com Diário De Um Vício de Marco Ferreri) que reencontra seu primeiro amor, Ivana (uma esplêndida Stefania Sandrelli). Mas Ivana é casada com Donato (Guido Nicheli) e não quer trair o marido. Ao descobrir uma traição de Donato com a prostituta Moira, com nome de batalha de “cavala de Porto Recanati”, passará uma noite com seu primeiro amor. O réveillon termina, as férias se acabam, e seis meses depois o grupo inteiro se encontrará na Sardenha.

É bom avisar logo que nunca mais o cinepanettone atingirá tais níveis de refinamento no roteiro: com um timing pontual, Enrico Vanzina escreve seu melhor filme (junto com Sognando La California e Yuppies). A crítica elogiou o filme sem muita ênfase, mas o público abraçou tanto Vacanze Di Natale, que até hoje existem dezenas de fã-clubes sobre o filme e os  personagens, como também são organizadas anualmente sessões especiais do filme. Há um fundo de melancolia que permeia todos os filmes escritos por Enrico Vanzina, como em momentos onde a gringa Karina Huff diz “Aqui se passa o tempo todo a decidir o que fazer e no final não se faz nada; you know… no meio destas pessoas me sinto estranha, como alguém que não deveria estar aqui”. Deste filme saem alguns dos maiores astros da história do cinema italiano: Christian de Sica, filho de Vittorio, terá sua carreira firmada graças a este filme e a quase todos os cinepanettone; Mario Amendola, filho de Ferruccio Amendola, dublador oficial de Robert de Niro, terá uma carreira bem definida entre a comédia e o drama; Stefania Sandrelli, no tempo com a carreira em declino, terá um ótimo comeback, graças também a La Chiave de Tinto Brass, lançado no mesmo ano; Guido Nicheli se tornará o líder espiritual de toda uma geração.

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A trilha sonora é praticamente uma lista de hits de 1983. Há um momento absolutamente mágico, no primeiro beijo entre Billo e Ivana, onde os personagens dialogam com trechos de música, vinte anos antes de Moulin Rouge de Baz Luhrmann. Abaixo a track-list, para discotecagens a tema.

Al piano bar di Susy – Eduardo De Crescenzo

Amore disperato – Nada

Ancora – Eduardo De Crescenzo

Aria di casa – Sammy Barbot

Aumm Aumm – Teresa De Sio

Dance all night – Lu Colombo

Dolce vita – Ryan Paris

Grazie Roma – Antonello Venditti

I like Chopin – Gazebo

I Want You – Gary Low

L’anno che verrà – Lucio Dalla

Maracaibo – Lu Colombo

Moonlight Shadow – Mike Oldfield (vocal Maggie Reilly)

Musica, musica – Ornella Vanoni

My Love Won’t Let You Down – Nathalie

Nell’aria – Marcella Bella

Nothing’s happening by the sea – Chris Rea

Paris Latino – Bandolero

Senza di me – Anna Oxa

Sunshine Reggae – Laid Back

Teorema – Marco Ferradini

Vita spericolata – Vasco Rossi

No Secrets – Gioia (Mirella Felli)

 

VACANZE IN AMERICA (Férias Na América) de Carlo Vanzina, 1984

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Um grupo de estudantes da escola San Crispino realiza uma viagem de férias nos Estados Unidos. O guia da comitiva é o professor de história e geografia Don Buro (Christian De Sica, que irá repetir o personagem no mítico Anni ’90 – Parte II), sacerdote puro e ingênuo, acompanhado por Don Serafino, um padre idoso com Alzheimer. Junto ao grupo de jovens estudantes se junta um ex-aluno, Peo Colombo (Jerry Calá), que prometerá aos meninos grandes noites de sexo com mulheres graças a seus dotes de amante latino: obviamente com consequências desastrosas. Filippo De Romanis é o único dos estudantes que irá acompanhado pela mãe solteira (uma divina Edwige Fenech). Alessio Liberatore (Claudio Amendola) se apaixonará por Antonella (Antonella Interlenghi), namorada de um fanático por videotape, porém ela irá recusá-lo devido a diferença de idade. Filippo De Romanis se apaixonará por uma surfista. Don Buro resistirá à tentação da senhora De Romanis, que em seguida se apaixonará pelo pai da namorada do filho dele. Voltanto á Itália, Alessio vai ao cinema com uma namoradinha e encontra Antonella, que declara seu amor por ele. Alessio diz que Antonella chegou atrasada: está apaixonado por outra pessoa, mas os dois podem ficar amigos.

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Um dos poucos cinepanettone não-Filmauro. Desta vez produzidos por Mario e Vittorio Cecchi Gori (A Vida É Bela ou O Último Imperador, tanto para dizer dois filmes), os irmãos Vanzina (Carlo na direção e Enrico no roteiro, como sempre) continuam com o mesmo registro de Vacanze Di Natale: comédia escrachada e extrema melancolia juvenil. Há momentos hilários, como quando Peo leva os colegas de escola na casa de um amigo de infância que organizou uma orgia: ao chegarem na cobertura, irão descobrir de estar em uma suruba gay. Ou quando, sempre Peo, para não gastar dinheiro com motel, irá na casa de duas prostitutas ítalo-americanas, onde não farão sexo, mas jogarão cartas com a família.

Alguns dos estudantes do filme são realmente estudantes do último ano do colégio San Crispino. Além disso, alguns dos atores, serão escalados para a série de TV I Ragazzi Della Terza C, produzida pelos Vanzina. É um dos poucos filmes italianos onde Edwige Fenech atua com sua própria voz e não é dublada. A música dos créditos finais é “Funny Face”, cantada por Rita Rusic, que se tornará esposa do produtor Vittorio Cecchi Gori e uma das mulheres mais influentes do cinema italiano dos anos ’90.

 

YUPPIES – I GIOVANI DI SUCCESSO (Yuppies – Jovens de Sucesso) de Carlo Vanzina, 1985

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Milão, anos ’80. Um grupo de quatro amigos yuppies vivem seus dias sonhando os mitos da grande finança italiana, como Berlusconi ou Giovanni Agnelli. Por conta de seu estilo de vida baseado mais em diversão e hedonismo, pensando ao aparecer mais do que ao ser, os amigos se encontram frequentemente em surreais situações das quais dificilmente conseguem se livrar. Willy (Ezio Greggio) é proprietário de uma concessionária de carros: um grande playboy, que namora Amanda, filha de dezessete anos de um importante conde; aguardando que a garota se sinta pronta para transarem a primeira vez, ele frequenta outras mulheres, como a linda quarentona Françoise (Corinne Cléry). Giacomo (Jerry Calá) é um publicitário que tenta conquistar a jornalista Margherita (Federica Moro, ex Miss Italia), mas a cada encontro com a garota, ele é empatado pelo diretor da empresa onde trabalha. Lorenzo é um tabelião que trabalha no escritório do sogro, e é a pessoa mais tranquila do grupo, casado, fiel, que não tolera excessos. Porém, é convencido pelo amigo Sandro a trair sua esposa com a secretária, sempre apaixonada por ele. Enfim temos Sandro (Christian De Sica), dentista que aproveita qualquer ocasião para trair sua esposa. Para os quatro, a situação irá complicar. Willy descobre que Françoise é a mãe de sua namorada; Giacomo é promovido vice-diretor da empresa, mas recusa de combinar um encontro entre Margherita e o diretor-chefe e se demite; Sandro descobre as traições da esposa e a deixa; Lorenzo, após salvar do suicídio sua secretária apaixonada, é despejado pela esposa. Os quatro se encontram em Cortina D’Ampezzo nas férias de Natal. Willy irá com uma nova namorada, Giacomo com sua amada Margherita e o calmo Lorenzo chegará no restaurante com várias mulheres que irá “dividir” com Sandro. Durante o almoço, como uma aparição divina, comparece o helicóptero de Giovanni Agnelli, patron da Fiat e homem-símbolo do quarteto e de toda uma geração de yuppies. Sandro, admirando o helicóptero dirá: “Mas nós, um dia… conseguiremos chegar lá?”. Ao chegar a conta do restaurante os quatro, que ostentavam riquezas com suas acompanhantes, brigam para decidir quem vai pagar.

É Yuppies – I Giovani Di Successo que irá sancionar definitivamente os rumos do cinepanettone como comédia de costume. O filme analisa através de tiques, manias e comportamentos toda a ideologia yuppesca italiana: uma tribu obcecada pela ostentação de relógios, roupas, marcas, joias e belas mulheres-objeto. Um filme geracional, que a crítica entendeu como uma glorificação destes ideais, mas que na verdade é uma sátira feroz e divertida, digna de um Steno ou um Mario Monicelli. O roteirista Enrico Vanzina declarou durante o lançamento do filme que “Os yuppies no trabalho são eficientes e profissionais. No tempo livre são engraçados”. E é nessa ridicularização do fenômeno yuppie que o filme ganha força. Os protagonistas tem como modelo empresários do calibre de Agnelli, Berlusconi, Carlo de Benedetti, Luca Cordero di Montezemolo, que possuem classe, riqueza e conquistam belas mulheres. Os protagonistas de Yuppies – I Giovani Di Successo não possuem nada disso, mas gostariam de chegar lá, mas não percebem o quanto são ridículos ao tentar subir na vida. Andam com carros caríssimos, frequentam boates de tendência, dão de presente joias a belas mulheres, mas brigam para quem deve pagar a conta do restaurante.

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O filme foi produzido quase como um instant-movie, logo quando em Milão iniciaram a proliferar os primeiro yuppies. A trilha sonora contém grandes sucessos como Duel dos Propaganda e Live Is Life dos Opus. Outras canções que acompanham o filme são Exotic and Erotic de Sandy Marton, Cheri Cheri Lady dos Modern Talking, More Than I Can Bear de Matt Bianco, I Was Born to Love You de Freddie Mercury e It’s So Easy de Valerie Dore. Grandioso sucesso de público e afundado pela crítica, que não conseguiu enxergar no filme uma crítica social. Como disse Enrico Vanzina, o filme “é uma operação velha como a comédia à italiana: pegar estereótipos do costume nacional e construir ao seu redor um filme-instantaneo, do qual alguns anos depois poderemos enxerga-lo provavelmente com um sorriso”. O crítico-midas italiano Paolo Mereghetti sancionou Yuppies – I Giovani Di Successo como “o filme italiano mais vulgar e nocivo da década”.

 

YUPPIES 2 de Enrico Oldoini, 1986

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Continuam as aventuras dos Yuppies milaneses, grandes profissionais no trabalho e desastradamente fracassados na vida privada. Giacomo (Jerry Calá) se casa com Margherita (Federica Moro, desta vez não dublada) porém tem um problema: ela quer desesperadamente um filho e obriga o marido a um impiedoso regime sexual. Para complicar, na casa chega uma visita: Anna, amiga de infância de Giacomo; modelo apaixonada por ele, que se declara psicologicamente instável porque desde adolescente desejava fazer amor com o coitado. Anna conseguirá possuir Giacomo por uma noite, bêbado, enquanto pensa que está transando com sua esposa. Ao perceber que Giacomo está realmente apaixonado por sua esposa, Anna voltará aos Estados Unidos, enquanto Margherita anunciará a Giacomo de estar grávida. Lorenzo (Massimo Boldi), expulso de casa pela esposa, terá que morar na casa de Sandro (Christian de Sica), que se apaixonará por uma nadadora soviética, que chegou na Itália a nado (?!?). Ela se apaixonará por Lorenzo pelo fato dele saber falar russo, mas ele está tentando reconquistar sua esposa: conseguirá tê-la de volta invadindo a casa, enchendo de socos o doméstico e sua sogra e tendo uma noite de sexo selvagem. Willy (Ezio Greggio) sonha em conquistar Isabella Barattini Tenti, empresária chefe de um império financeiro: os amigos contratarão uma sósia para um trote, ele pensará de ter conquistado o coração da industrial e ao descobrir a brincadeira, decide publicar fotos picantes dos dois (?!), conquistando a verdadeira Rainha da Bolsa. No final, os amigos se encontram em um voo particular para Roma, onde tentarão fechar um negócio com o Papa. De maneira desastrosa, óbvio.

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Se por um lado o roteiro da sequência de Yuppies pode ser considerado um desastre, de outro não podemos negar a desenvoltura com a qual Enrico Oldoini troca as cartas do cinepanettone, revolucionando o registro do gênero, que a partir de então terá sempre mais espaço ao absurdo e ao impossível. Os Vanzina não estão no roteiro e se vê (ocupados na realização do refinado I Miei Primi 40 Anni). Ainda não chegamos às gags físicas e escatológicas (e geniais) de Neri Parenti; ao contrário do que possa sembrar, este segundo capítulo continua com uma certa crítica social, que Oldoini tratará mais detalhadamente em sua trilogia sobre a Itália (Anni ’90, Anni ’90 – Parte II e Miracolo Italiano), realizando um verdadeiro tratado sociológico sobre usos e costumes da Itália pré-berlusconiana.

 

MONTECARLO GRAN CASINÒ de Carlo Vanzina, 1987

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Entre hotéis de luxo e o cassino de Montecarlo circula um grupo de italianos que tem como característica comum o vício do jogo. Furio (Christian De Sica) vence uma grande quantia no Cassino, perdendo-a no dia seguinte. Sua namorada o abandona e ele, sem um tostão, será obrigado a trabalhar como gigolô de uma velha senhora multimilionária. Os irmãos Gino (Massimo Boldi) e Lino (Enrico Beruschi) são donos de um restaurante e vão para Montecarlo para comprar um apartamento e obter a cidadania para economizar nos impostos. Gino perderá todo o dinheiro jogando na roleta com Silvia, a amante de um empresário. Oscar (Ezio Greggio) é um golpista que se aliará com Paolo (Paolo Rossi), um eletricista de San Remo ótimo nas cartas.

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O filme marca a volta de Carlo e Enrico Vanzina e é de um frescor único no cinepanettone. O melhor são os míticos Guido Nicheli e Mario Brega, que reservam momentos épicos. Será o maior fracasso de bilheteria dos cinepanettone, tanto é que Aurelio de Laurentiis chegará a pretender que Massimo Boldi, Christian de Sica e os Vanzina trabalhem grátis para o filme do ano seguinte: os quatro irão recusar, para realizar o maravilhoso Fratelli D’Italia, escrito pelos Vanzina e dirigido por Neri Parenti. Não haverá cinepanettone até 1990. Nothing’s Gonna Stop Me Now de Samantha Fox é a música-tema do filme.

 

VACANZE DI NATALE ’90 (Férias de Natal ’90) de Enrico Oldoini, 1990

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Em um luxuoso hotel de St. Moritz, durante as férias de Natal se desenvolvem as estranhas aventuras de alguns clientes. Nick (Diego Abatantuono), falido dono de um restaurante, perde a voz após ter vencido 4 milhões em uma corrida de cavalos. No avião para St. Moritz conhece Eliette, uma refinada mulher pela qual se apaixona: ele não fala e se comunica somente com gestos e bilhetes. Na véspera de Natal ele é convidado em um jantar na casa da família de Eliette: durante um discurso reacionário contra os pobres e os moradores do sul da Itália, Nick recupera a voz e insulta toda a família aristocrata. Toni (Christian de Sica) é um jovem gigolô que casou com Gloria (Moira Orfei), uma senhora bem mais velha que ele, que o obriga a continuas torturas sexuais sadomasoquistas. Toni reencontra um amigo de juventude, Bindo (Massimo Boldi), que descobre uma traição de sua mulher. Toni e Bindo arquitetam um plano para matarem suas esposas.

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Totalmente sem rumo e sem sentido, esse Vacanze Di Natale é o pior filme da série. Mesmo tendo o co-roteirista de Era Uma Vez Na América Franco Ferrini, o filme não se segura, sendo uma cópia delirante do original Vacanze Di Natale. Como mérito, tem o tentativo de adaptar o esquema de cinema natalino a uma comédia mais sofisticada em estrutura, mas sem perder a sua vulgaridade. No ano seguinte, com Vacanze Di Natale ’91, Oldoini se faz perdoar por esse esquecível filme.

 

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Mais uma vez em St. Moritz, um grupo de italianos passará o ano novo em um prestigioso hotel. Mimmo (Andrea Roncato) e Rino (Nino Frassica) são um casal gay que vai passar as férias com o filho de Mimmo, que tem 10 anos. Rino conhecerá uma mulher que fará descobrir sua heterossexualidade. Leopoldo (Ezio Greggio) é viúvo: casará com Marta (Susanna Berquer) e os dois serão importunados pelo fantasma da ex-mulher. Dois homens (Massimo Boldi e Christian De Sica) decidem trocar suas esposas por uma noite, com situações desastrosas. Giuliana (Ornella Muti) finge ser uma mulher rica: namora com um conde, mas tem vergonha de admitir que seu padre Sabino (Alberto Sordi) é garçom do restaurante do hotel. Na noite do Reveillon, graças à amizade de um velho cliente politicamente influente, Sabino se vingará de todas as humilhações que aguentou do diretor do hotel e dos clientes.

Cópia carbono do argumento de Vacanze Di Natale ’90, mas com um roteiro desta vez de peso, assinado por Oldoini junto a Giovanni Veronesi e Alberto Sordi. Divertidíssimo o episódio de Massimo Boldi e Christian De Sica. Já o episódio do casal gay tem ótimas premissas, que se resolvem de maneira moralista (a mulher “conserta” o gay passivo) e sem bom desenvolvimento. O episódio de Ezio Greggio é extremamente delirante, com risadas dignas de vergonha alheia. Irresistível ver Alberto Sordi, num papel melancólico e cômico como quase todas as coisas que ele fez nos anos ’90.

Um bom filme, mas extremamente cansado. No final, no baile de Reveillon, todos os conflitos se resolvem graças à música Ritmo De La Noche que ao iniciar leva todos os personagens na pista de dança, interagindo até mesmo sem se conhecerem. Quase como uma marcha fúnebre, a música levanta personagens cansados, mas que conseguiram a difícil missão de nos fazer rir. E muito.

O cinepanettone mudará por alguns anos seus modos de enfrentar a realidade nos filmes a seguir.

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