“Diário De Um Vício” de Marco Ferreri, 1993

5366537-cover (1)

“Queres unir nossas solidões?”

Benito

 

Benito (Jerry Calá) trabalha como vendedor de detergentes de péssima categoria. Ele anda por uma Roma irreconhecível, periférica e vulgar, tentando vender seu produto e procurando aventuras eróticas com as mais improváveis mulheres. Viciado em sexo, Benito namora com Luigia (Sabrina Ferilli), mulher infiel e muito ingênua.  Com quarenta anos, Benito percorre sua humilhante e desesperadora existência em um mundo que não pertence a pessoas como ele. O diário que ele escreve é o confessor de seus pecados. É o diário de um vício.

É uma balada melancólica esse penúltimo filme de Marco Ferreri, perfeitamente acompanhada pelo sax de Gato Barbieri. Abrindo uma tendência típica do cinema italiano dos anos 90, “Diário De Um Vício” reflete sobre um ser à deriva.

Estreitamente ligado a seu filme anterior, “La Carne”, “Diário De Um Vício” continua seu discurso sobre amor e morte; Benito, quase um fantasma ou um ser invisível, que vaga numa Roma que não lhe é amiga, é um morto que caminha. Reconhece perfeitamente seu estado de doente (mental e físico). Luta contra a fome, sobrevivendo de pequenos furtos feitos à namorada e vendendo detergentes que ele mesmo dilui na água para render mais.

00325501

Talvez não seja a maior obra do Ferreri, pelo menos no aspecto técnico, mas vejo em “Diário De Um Vício” um filme perfeitamente alinhado com sua proposta e seu personagem, interpretado por um grande Jerry Calá. Astro das comédias italianas de grande bilheteria que a crítica e os intelectuais odiavam nos anos ’80, Calá foi a escolha perfeita. Ator que começava a ser esquecido e que não estava atravessando uma boa fase de sua vida pessoal (culminando em uma grave depressão anos depois, após de ter dirigido o desastroso cult-trash “Chicken Park”), entrou perfeitamente no papel de Benito.

Benito é a personificação de todos aqueles jovens que viveram ao máximo a juventude dos anos de chumbo e que tornaram-se adultos na inútil Itália pós-socialista e pré-berlusconiana. Com muitos momentos oníricos, que contam sempre mais sobre o passado do personagem (do qual quase não se faz referência se não em sonhos), “Diário De Um Vício” cria um vínculo entre “La Carne” e “Nitrato D’Argento”, seu próximo e último filme. O amor por contar histórias de pessoas ou coisas destinadas ao fracasso. Quase um otimismo pessimista.

 

showimg2

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s